quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Crescemos sempre até ao fim


Quando nos morre alguém, como no dia de hoje há dez anos, sentimos que não vamos sobreviver. A garganta fica com um nó, o coração apertado, os olhos pequenos de tanto chorar: tudo em nós encolhe, minga, sufoca.
O grande desafio de se crescer (eu não acredito em envelhecer, acho que crescemos até ao fim) é este: crescer implica expandir, abrir, ocupar mais espaço, ficar maior e a morte dos que amamos faz precisamente o contrário, diminui-nos, fecha-nos, insignifica-nos face à grandeza do amor. Por isso, dizia eu, o grande desafio de crescer é fazermos o pino e, com o mundo de pernas para o ar, encontrarmos o equilíbrio novamente sem as referências do amor que nos guia na vida, voltarmos a endireitar os quadros nas paredes, a olhar sem lágrimas as fotografias nas molduras, a endireitar a vida com o peso estranho da ausência que levita.
Cada pessoa que parte esvazia-nos, entristece-nos para sempre, numa tristeza que aprendemos a convidar para comer connosco à mesa e dormir e acordar ao nosso lado na cama, porque negar, evitar não a vai fazer desaparecer, porque aceitar ajuda a crescer, ainda assim. Um dia, desgostos somados, crescemos tudo e fazemos contas ao amor, às memórias felizes, à saudade e, outra vez, aos desgostos somados.
Crescemos a acreditar em finais felizes mas só há tristeza em qualquer fim.
Eu achava que não se sobrevivia à morte, há treze anos, há dez no dia de hoje, há cinco, neste Julho que passou e como estava enganada.
As pessoas dizem que se envelhece porque crescer deixa de ser bom e em expansão e passa a ser duro, com perdas e a mingar mas, ainda assim, trata-se sempre de crescer.
Crescemos até ao fim porque sobrevivemos sempre à morte.

É a vida que acaba. É à vida que não se sobrevive e esse é, talvez, o grande paradigma da humanidade. Do amor. 

sábado, 18 de dezembro de 2021

Electra



Os avós tinham chegado dos Açores, depois de uma distância de dois anos. A avó fala com ela muitas vezes por semana- num esforço que me enternece- para alimentar a relação, para acompanhar o crescimento da neta. Faço questão da Ana ligar de volta, contar sobre os seus dias, alegrias e inquietações. Sei a importância que os avós podem ter na vida dos netos, os meus continuam, depois de mortos, a orientar-me o caminho.
A minha mãe é a maior: ninguém a bate, ninguém está à sua altura nesta tarefa. A Ana diz sempre que é a avó aventureira e isso diz tudo sobre a relação delas, cheias de aventuras e afectos, riscos e segurança.
O meu pai não conhece a Ana, por desamor, incapacidade de se vincular.
Mas estes avós vivem longe, o caminho não se faz por estrada nem cacilheiro nem comboio nem bicicleta.
A avó liga várias vezes por semana, dizia eu, mas o avô nem por isso. Talvez por essa razão, estávamos curiosos para perceber como iriam interagir, a Ana e este avô distante e menos presente.
A meio da semana a avó perguntou insegura: "Gostas mais de mim ou do avô?" A Ana, colocada injustamente naquela posição frágil, não hesitou: "Do avô." E rematou " tens que perceber que estou a descobrir como é ter um avô e é alegre e divertido!".
Depois, foram até à feira de Natal e a Ana agarrou as mãos de dois dos homens da sua vida e pediu que atirassem ao alvo para lhe conseguirem um peluche gigante. Vibrou, torceu e no fim não ganhou o peluche.
A pontaria era má mas eles não sonham como é certeiro o sentido de orientação que estão a deixar na Ana, amada, querida, importada. A vinculação, o sentido de pertença e até a cena freudiana são mais valiosos que qualquer peluche gigante. E nunca ganham pó, por mais tempo que passe.
Ganha-se sempre no jogo do amor.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Com força e baixinho

 


Quando o avô morreu eu entrei na sala e tu choravas baixinho. Quando me viste choraste mais, com mais força, mas simultaneamente mais baixinho, e tapaste o rosto com aos mãos como se tivesses vergonha da fragilidade, embaraço da vulnerabilidade. Tinhas sido sempre crescida, durante toda a minha vida, era a primeira vez que te via pequenina, com as mãos a tapar os olhos verde azeitona, verde louro, verde teus avó, como uma criança que esconde a cara com o bibe quando fica assustada e tem medo do Mundo.

Eu também tive medo, avó, desse Mundo que veio depois do avô e que nunca mais foi o mesmo e também chorei baixinho e com força, acho que foi contigo que aprendi a chorar sem histerias, baixinho e com força, como quando tinha muitas dores e, já adultas - as duas- tu vinhas para a minha cama e te deitavas ao meu lado a embalar-me para me adormeceres a dor.

Naquele dia o avô morreu e tu não quiseste ir ao velório, nem ao funeral e ninguém percebeu porquê. Ficaste em casa a fazer comida, e tu mal conseguias fazer comida, a mão que me embalava tinha sido silenciada pelo AVC, continuava porém a fazer comida e a embalar-me, no Minho as mulheres alimentam os vivos que choram os mortos.

E nunca mais abriste a porta do teu quarto e do avô, já não havia vocês os dois, só a porta fechada, como o Mundo fechado ficou e talvez, por isso mesmo, tu tapavas o rosto como uma criança com medo tapa a cara com a fralda do bibe. Três anos depois adormeceste na sala, olhos verde louro fechados, nunca mais tinhas entrado no quarto, fizeste comida até à última refeição, a mão com o AVC, e dessa vez não acordaste, assim com força e baixinho partiste, talvez para ires fazer comida para o avô que te esperava, botas de borracha e sorriso com dentes tortos.

E eu fiquei, e deixaste-me a Ana na barriga, segredo que só descobri dias depois, para poder ter quem embalar, para me abrir as portas do teu quarto e do Mundo, para usar bibes sem tapar o rosto, para poder continuar a chamar Ana como te chamava a ti, vó Ana, para me deitar ao seu lado hoje, ela já dorme, e embalá-la, com força e baixinho, para ver se adormeço a saudade que, agora crescida, trago em mim.

Amanha faço comida eu.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

É bacalhau espiritual


A melhor amiga da Ana agora mesmo, na primeira comunhão:
"Liliana, vamos comer bacalhau santificado?"

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

A melhor música de Natal

 

Começo eu: "Noite Branca" dos Anjos *
Agora vocês!


[* Não mete coca mas mete casacos de cabedal fake com cortes miseráveis dos anos 90 e se é para azeitices antes o bonzão do Sérgio que os trinados da Mariahzinha]

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Moinho do Maneio

 



Há um lugar com casinhas de pedra que parecem de brincar. Com redes espalhadas à beira rio a convidarem-nos a baloiçar ao sol, à sombra, às estrelas, ao amor e à paixão, ao colo e à intimidade. Aos afectos. Com uma piscina onde podemos ser piratas e sereias em água doce e lagartixas e camaleões ao sol. Com pequenos socos com o melhor bolo de chocolate do Mundo, sumo de framboesas naturais e figos da Índia descascados, iogurtes com granola bons e pão a saber a pão e queijo de cabra e uma vista sobre o rio. Ah, o rio!

Há um lugar com um rio e uma canoa à espera de ser estreada, mesmo que já a tenhamos estreado antes, porque são sempre novas águas a correrem em direcção à pequena represa e os sapos assustam-se à nossa passagem e mergulham à nossa frente - flop!- e somos os três na canoa a cantar alto e a rir às gargalhadas ou é só ela, Pocahontas de Penamacor a remar em direcção a um mar que sabemos que existe lá longe mas que existe, e estamos sempre a caminho dele, mesmo que o rio seja no interior.

Existe um lugar com burros a zurrar e que correm quando lhes acenamos cenouras e cães amigáveis e educados a abanar a cauda, que recompensamos às escondidas com sobras do jantar. Onde pomos a tocar nas aparelhagens antigas de CD Maria Callas e Tom Jobim e as noites são,também por isso, mais estreladas.

Há um lugar onde cozinhamos comida caseira e sopa de tomate para comer nas mesas fora da porta e fazemos chá para beber ao serão, enquanto jogamos jogos de tabuleiro sem sentir falta de televisão nem rede de telemóvel porque o tempo e o silêncio são presentes dos céus.

Há um lugar onde nos recebem e se despedem de nós com o mesmo sorriso aberto e verdadeiro e onde damos por nós a cantar muitas vezes baixinho, a trautear músicas, porque quando estamos felizes cantar faz parte de quem somos. Há um lugar único em Portugal onde a minha família entra família e sai ainda mais família, mais conectada, mais íntima, mais simbiótica.

Há um lugar chamado Moinho do Maneio

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

O Mundo divide-se...

... entre as pessoas que, mal espreita o Outono, ainda andam de chinelos e as que passam logo a andar de calçado fechado/botas

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Ana explica à avó como dá a volta ao pai...

"Sabes, avó, não pode ser asim à bruta. tem que ser assim tipo jazz..."
A minha mãe: "Como assim tipo jazz?!"

"Começa assim devagarinho, sem darmos por nada e quando avança é que ganha ritmo, entendes? 

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Ana com febre*

Eu para mámen: "o pediatra mandou intercalar Benuron com Brufen: começamos com qual?"
Ana, em modo drama Queen: "misturem os dois na Bimby, velocidade dez e façam um cocktail..."




*É uma gastroenterite. 

"Do que gostaste mais do fim-de-semana fantástico, Ana?"

Da música que tu e a tia cantaram da Tieta daquela parte "Tieta do agreste, lua cheia de tesão, é lua, estrela, nuvem, carregada de paixão"
(faz uma pausa)

O que é tesão, mamã?" #anaamaior 
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