domingo, 5 de janeiro de 2025
O Mundo divide-se...
sábado, 4 de janeiro de 2025
Revivalismo blogosférico
Faria, este ano, 20 anos desde a criação deste blog. Arquivei mais de 8500 posts para escrever este aqui, pela primeira vez, em muitos anos.
Às vezes falávamos entre nós - as dinossauras da blogosfera- que um dia voltaríamos. Nunca voltámos por preguiça, falta de vontade, inércia ou descrença de que este formato voltasse a interessar a alguém. Talvez só nos interessasse mesmo a nós, que escrevíamos. Uma espécie de ego-dependência revivalista.
Depois outras vezes- muitas- lá vinham pessoas a comentarem nas minhas redes sociais de que tinham saudades do blog. Eu lia e ria-me, enternecida, e na dúvida sobre se as pessoas tinham, de facto, saudades do blog ou saudades de quem eram e de quem eu era quando liam o blog.
Não tenho certeza de que as redes sociais tenham humanizado as relações virtuais.
Quando aqui comecei a escrever, há 20 anos,- antes do facebook, dos tuc-tucs, do spotiffy, do meu casamento, dos robots inteligentes, da morte dos meus avós e dos meus tios, das influencers, do tik tok, da netflix, da skincare, do fim do anonimato dos blogs, das unhas de gel e das extensões de pestanas, da inteligência artificial e da Ana- a internet era de acesso mais ou menos restrito, uma espécie de Conforama, Moviflor ou lojas de móveis de Paços de Ferreira antes do IKEA democratizar a decoração e todos nós termos mais ou menos as casas iguais, que é o que agora sinto quando abro as redes sociais.
Toda a gente sabe que a a Conforama, a Moviflor e as lojas de móveis de Paços de Ferreira são capazes de estar ultrapassadas e que muitos móveis são feios que doem mas, lá no meio, sinto alguma autenticidade na madeira que não é folha de contraplacado e não consigo deixar de admirar a durabilidade da mobília de pinho da sala da casa da minha tia que, não sendo moderna e cool, tem sobrevivido digna e impecável às várias estantes Billy das minhas diferentes casas ao longo destes anos.
Dizia eu que quando aqui comecei a escrever, há 20 anos, havia de tudo e para todos os gostos, muito bom, bom, médio, sofrível; real e ficcional, generalista e temático, divertido e deprimente, individual e colectivo. Mas era tudo muito mais real e humano: éramos pessoas que escrevíamos em blogs muito antes de nos empurrarem a ser chamados de bloggers, depois de criadores de conteúdos digitais e a milhas da ideia aterradora de sermos influencers.
Falávamos das nossas vidas, das nossas experiências, das nossas ideias e pensamentos, das nossas opiniões e indignações, muito antes de nos enviarem press releases e amostras para divulgarmos barritas de cereais, nos pedirem orçamentos para publicarmos posts com guiões encomendados por marcas, muito antes de percebermos que poderíamos vender os nossos blogs, como montras de marketing, e monetarizarmos a actividade de escrever como fonte de rendimento.
Tínhamos quase todas nicknames embaraçosos, éramos anónimas e não aspirávamos à fama, aliás, tudo o que mais temíamos era sermos descobertas, para não perdermos a liberdade de dizer que estávamos apaixonadas pelo nosso melhor amigo, que nos sobrava mês ao final do salário, que tínhamos crises nas nossas relações amorosas, que odiávamos estar grávidas, que o cão xixava em todo o lado e que só nos apetecia rifá-lo, que ouvíamos os vizinhos pinar e temíamos cruzar-nos com eles no elevador sem nos finarmos a rir, que o patrão era um cretino, a nossa mãe estava na menopausa e a nossa sogra era uma sem noção (e era um patrão abstracto, uma mãe generalista e uma sogra personagem-tipo que, para o efeito, não interessava saber quem eram efectivamente, nunca era sobre o patrão,a mãe ou a sogra: era só sobre a nossa visão da vida adulta).
As pessoas comentavam, algumas em anónimo, outras também com nicknames meio ridículos que hoje as envergonhariam, todas tinham que fazer login para nos comentarem (por que, entretanto, a maioria de nós, as que escrevia, deixou de aceitar comentários anónimos), muitas enviavam-nos emails compridos e bonitos, a dizer que se tinham identificado com o que havíamos escrito, outras a partilharem desabafos, e abrir a caixa de email e escrever requeria tempo e disponibilidade, não era simplesmente o vómito imediato de um comentário numa rede social.
Não tínhamos que tirar fotografias, editar luminosidades, fazer e editar vídeos com grwm e pranks: éramos nós, as palavras e os que, generosamente, nos liam (qual followers, qual quê?).
Éramos apenas pessoas reais, com vícios e virtudes e muito inocentes no uso da internet. Emissores, mensagens, receptores: a simplicidade linear da comunciação.
Também não sei se manterei o blog público porque antes não sabia para quem escrevia mas hoje sei que, em formato público, escrevo para muita gente para quem não quero. Acredito que é muito mais feliz escrever-se para desconhecidos que para conhecidos, porque nos dá uma sensação (talvez falsa, talvez errada) de que nos julgam menos, de que fazem menos juízos de valor; porque não corremos o risco de, no talho, a Sra. Maria nos confrontar com um "então, divertiram-se em Freixo de Espada a Cinta? Vi no teu instagram!" quando tudo o que queremos é apenas falar para o ar do maravilhoso que foi ver o Douro em Freixo de Espada à Cinta e não fazer small talk com a Sra. Maria.
Também não sei se voltarei a libertar alguns posts dos rascunhos (ou algumas rubricas, talvez) porque terei que as ler aos olhos de 2025. O Mundo mudou. Eu também. Logo se vê.
A Ana pediu no Natal passado um gira-discos. E depois no seu aniversário uma velha máquina de escrever.
"Para quê se tens spottify e ipad e tudo moderno, Ana?"- perguntei.
"Gosto de ouvir as imperfeições das músicas nos discos de vinil e o gozo que me dá escrever poemas carregando tecla a tecla na minha máquina de escrever, tão antiga, tão bonita, mãe..."
20 anos depois cá estou. Porque como a Ana gosto de imperfeições e de escrever, tecla a tecla.
Não sei se é o regresso dos blogs
Mas a minha parte está feita (Ouviste Sofia? Ouviste Jonas? Ouviste São João? Ouviste Luna? Ouviste Prezado?).
Feliz 2025!
Sejam gentis.
domingo, 29 de dezembro de 2024
Viver é resistir
Tenho passado os últimos anos num conflito interno sobre o que está na nossa ação e o que nos foge completamente ao controlo.
A minha experiência absolutamente empírica diz-nos que quase a totalidade dos acontecimentos resultam de factores externos que dificilmente controlamos. O que, na verdade, não é muito difícil de gerir por mim que odeio planear e que lido bem com o imprevisto, que sou flexível e adaptável em demasia e que giro muito bem a frustração. Ou talvez até seja porque o mecanismo de coping que arranjei para controlar tudo isto e não me maçar muito é desistir de controlar: assim a vida- essa cínica trágico cómica- já não me apanha desprevenida. Ou talvez apanhe, mas nunca muito.Continuo, por isso - ou apesar disso (ainda não descobri) - a odiar surpresas. Sei que parece horrível e desromântico mas um dia farei um clube das pessoas fritas como eu que odeiam e dispensam surpresas. Para surpresa já temos a vida.
O Jorge Palma fala nisto numa canção sobre esta coisa de se ser um optimista céptico e o Jorge Palma nem imagina mas todas as músicas que eles escreveu ou escreve são para ou sobre mim.
Esta coisa de formular desejos ou de fazer resoluções de ano novo tem-me parecido parva nestes últimos anos, para além de que é ridículo associar isto a passas (alguém gostará verdadeiramente de passas?) porque enfarde eu as passas que enfardar- ou vista na passagem de ano as cuecas da cor que vestir- nada faria prever as cirurgias aos olhos da minha mãe, o internamento e as dores chatas, os livros todos que me ficaram por ler, o frigorífico que só tinha 3 anos e pifou, o inundação na casa, as férias adiadas com a minha melhor amiga, a minha incrível falta de vontade de partilhar o que escrevo, os quilos a mais, o cabrão do cabelo quebradiço mesmo que eu não o pinte para o poupar, os problemas nos dentes da miúda mais a mudança de escola que tardou a acontecer e a culpa materno judaico-cristã, mais a guerra na Ucrânia e na Palestina, o Trump nos States, o horror da Pelicot, o aquecimento global e a vida.
Talvez tenha só concluído que viver é, sobretudo, resistir a estes caldos e belinhas da vida, às vezes socos e pontapés.
E responder com um pirete assim.
sábado, 28 de dezembro de 2024
Foi um Natal bom
Foi um Natal bom. Vamos recuar e relembrar primeiro que fui internada. E que não foi nada fixe mas não interessa, voltei para casa e para a lufa-lufa do trabalho e quando dei por isso era Natal.
segunda-feira, 25 de novembro de 2024
Feliz Ano Velho ainda está aqui
quarta-feira, 24 de julho de 2024
Limetree
A maior aprendizagem que se pode fazer na vida é saber lidar com o fim da vida. Primeiro o dos outros, sempre como projeção do nosso.
sábado, 15 de junho de 2024
New race
Ao princípio não foi simples. Eu tive medo mas achei que o Mundo e os astros estariam em sintonia com os valores com que te temos educado e que tudo se iria ajustar. Eu tive medo, já disse? Esta também é a minha primeira volta no carrossel da vida e muitas vezes nao consigo acompanhar o balanço e só fico tonta e nauseada. Tambem na tua educação. Principalmente na tua educação.
Acabou por nunca ser simples. O Mundo e os astros desalinharam-se muitas vezes. E os valores com que te temos educado mostraram que eram os melhores para ti, apenas e apenas se vivessemos num Mundo onde estes valores de compromisso, diversidade, humanidade, integridade e o respeito inabalável por quem se é, sem desvios nem vontade de existir em função das expectativas dos outros, de se ser fiel ao que se acredita sem querer ser o que o outro espera, esta maturidade no estabelecimento de limites, fossem universais. Não são.Pedimos muitas vezes que te ajustasses. Que flexibilizasses. Que nao levasses tão a sério os teus dogmas e as tuas crencas. Até que percebemos que nunca podemos pedir que deixes de ser tu em função do colectivo, da norma. Na verdade, nunca te educámos para a norma.
Nunca te desviaste do teu caminho. Essa rigidez que tantas vezes nos preocupa dá-nos o alento de acreditarmos que, de tudo o que de bom te ajudámos a ganhar, a tua integridade foi a nossa maior vitória. És inabalável. O orgulho que sentimos de ti.
Entraste com dez anos acabados de fazer. Corrias aos saltinhos para o portao, com a mochila maior que tu, cheia de nervos mas sempre com coragem e valentia.
No fim não foi fácil. Nunca foi fácil.
Hoje foi o ultimo dia e, no proximo ano, nao sabemos o que nos espera. Mas temos esperança que encontres a tua tribo. "Hoje estou felistre, mãe"-disseste de manhã. "Felistre" é o meu novo neologismo preferido. Eu diria ambivalente mas, na verdade, estou feliztre contigo: feliz pelo novo ciclo que nos espera, triste porque nunca foi fácil. Mas a vida é muito este equilibro entre a felicidade e a tristeza.
Hoje foi o ultimo dia de uma das tentativas do primeiro dia do resto da tua. Muitas te esperam vida fora. Nao e game over: é new race. May the odds be in your favor.
domingo, 2 de junho de 2024
O pior de ter filhos
O pior de ver os filhos crescer é ter que os deixar experimentar a dor. A tristeza. O desânimo e a frustração. A raiva e a desilusão.
E não poder estar lá para dar beijinho no dói -dói porque às vezes- quase sempre- o dói -dói é na alma e não está aqui ao alcance dos nossos lábios.
O pior de ver os filhos crescer é às vezes não ser tão claro explicares o funcionamento do Mundo e da vida, porque muitas vezes não há racional nem lógica no que acontece e coisas más acontecem a pessoas boas e coisas boas acontecem a pessoas que nem sempre prestam.O pior de ver os filhos crescer é já não conseguires delimitar o bem do mal com tanta clareza, de muitas vezes tudo o que ensinaste que é certo não os levar a lado nenhum porque há o contexto e os outros, e se a maioria escolhe o que tu consideras errado pois que é o errado que estabelece a norma. É teres que os ver aprender, pelos próprios meios, que as injustiças vão sempre acontecer e que muitas coisas que não estão certas vão ser normalizadas mas que é seu dever moral nunca as considerar "normais".
O pior de ver os filhos crescer é quereres que eles sejam aceites sem desvirtuarem os seus valores, sem abrirem mão da sua ética, sem prescindirem da sua liberdade individual mas que, muitas vezes, o caminho pode ser solitário para quem não cede à maioria, para quem pensa pela sua cabeça, para quem não deixa que o colectivo esmague o individual.
O pior de ver os filhos crescer é perceberes que só educaste aquela pessoa mas que não educaste o Mundo e que é no Mundo que aquela pessoa se vai mover e que terá que sobreviver.
O pior de veres os filhos crescer é perceberes que o teu colo já não chega para ser o coito na corrida da vida e que não podes colocar airbags em redor da existência daquela pessoa pequena e que crescer é duro e implica saltar de desconforto em desconforto, que descobrir-se quem se é já é duro, mas descobrir-se quem se é no Mundo é uma tarefa hercúlea.
O pior de ver os filhos crescer é perceber que eles serão cada vez mais do Mundo tentando travar que deixem de ser cada vez menos teus.
sábado, 23 de dezembro de 2023
O Mundo divide-se... (versão minhota)
... entre quem prefere aletria e entre quem prefere mexidos/formigos.
domingo, 3 de setembro de 2023
Dezassete
Amo-te.
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