quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Podem achar que isto é um apelo a voto mas eu não sou nenhuma influencer e só falo de mim: portanto pensem à vontade e ainda levam com o #eeuralada

Na semana que passou fui jantar com o Jorge - este Jorge- e uma amiga comum, também ela cadeirante, antes de irmos a um evento.

A amiga desloca-se de cadeira de rodas eléctrica e para chegar a qualquer compromisso tem que sair de casa- ainda que seja em Lisboa cidade- muito tempo antes, uma vez que só (alguns) autocarros da Carris conseguem oferecer-lhe a única alternativa: não se pode confiar na falta de elevadores a funcionar em pleno no acesso aos metros (quando há elevadores), não há normalmente táxis adaptados para aquela tipologia de cadeira eléctrica ( e a haver cada corrida custa mais que um jantar) e não há Ubers adaptados.

Ponto de encontro: parque Mayer, centro de Lisboa. Há ali dentro um restaurante simpático e com boa comida que já me havia sido recomendado. Na véspera liguei para lá para me certificar se tinha acessibilidade e a resposta veio afirmativa, até haveria a possibilidade de uma rampa amovível.

Fomos descansados e quando chegámos percebemos que não só não estava a rampa disponível como a acessibilidade estava pronta para ser assegurada em braços pelos empregados solícitos do restaurante: uma das cadeiras eléctricas sozinha pesa mais de cem quilos, para terem a noção. Declinámos gentilmente, até porque nenhum adulto tem vontade de entrar ao colo de estranhos num restaurante, por mais boa vontade e gentileza que venha revestida a oferta: precisamos de rampas e acessibilidades, não colos nem jeitinhos.

Frustrados continuamente, lembrámo-nos de que havia ali na esquina um restaurante sobejamente conhecido- estávamos na Avenida da Liberdade, uma das artérias principais de Lisboa. Assim que chegámos percebemos que não conseguiríamos entrar porque havia degraus disuasores mas ofereceram-nos como alternativa a esplanada contígua, em cima do passeio lateral da própria Avenida. Queríamos mesmo jantar e arriscámos, ainda que pingasse e os enormes chapéus não nos protegessem da chuva. Quando nos trouxeram o menu percebemos que não tínhamos disponíveis os mesmos pratos que serviam lá dentro às pessoas que descem degraus automaticamente sem pensarem nisso e que por não terem mobilidade condicionada jantavam com ar condicionado e a uma temperatura confortável. Indagámos a razão do menu alternativo: era o menu da esplanada. Mas a esplanada não tinha sido uma escolha nossa, mas uma inevitabilidade pelo facto de um edifício com serviço público não cumprir a lei das acessibilidades. Que percebiam mas que aquele era o menu da esplanada.

Frustrados exasperadamente e salpicados de chuva pedimos um prego e bebidas de pressão. Veio a conta: 15 euros por pessoa (repito: um prego e uma bebida de pressão). Ah, são preços de esplanada! A mesma que não foi uma escolha nossa, mas uma inevitabilidade.

Este é apenas um exemplo de uma quinta-feira à noite.

Eu não gosto de política mas percebo a sua necessidade como modelo de funcionamento social. Na verdade o que eu não gosto são de políticos, com agendas secretas e necessidades de tachos, vindos das universidades das juventudes partidárias e sem saberem que há vida para além da chatice dentro de carros confortáveis e funcionais na fila da A5 e da maçada do tempo que demora a vir o menu de degustação do restaurante in a que vão e onde comem a temperatura ambiente confortável e banda sonora a condizer.

Sobre o BE tenho pontos em que me revejo na sua agenda política e outros que nem por isso ou outros que não de todo.

No domingo - 6 de Outubro- votarei neles, ainda assim.

Porque a política tem que nos representar: a todos. Tem que haver vozes dissonantes, diferentes perspectivas, oposição (por isso é sempre tão perigoso haver maiorias absolutas). E de haver pessoas que proponham legislação que proteja todos, sabendo do que falam, na pele, não conceptualmente.

O Mundo não é das maiorias: é de todos. Inclusive de todas as minorias no seu espectro total desde aqueles que demoram mais de uma hora a atravessar Lisboa sem trânsito por falta de transportes acessíveis e que comem pregos cheios de nervos a 15 paus e com chuva na mona e ainda assim são privilegiados porque não vivem no limiar da pobreza até tantas outras pessoas com deficiência a quem não sobra esse valor depois de todas as despesas inerentes aos gastos com as desvantagens trazidas pelas suas patologias e nem sequer de casa conseguem sair para ir à rua, vivendo numa espécie de prisão domiciliária sem terem cometido nenhum crime, excepto o de não terem corpos cem por cento funcionais.

Este não é um apelo ao voto. Cada um votará em consciência e estará sempre certo. É um remind para que não se esqueçam que os políticos nos devem representar a nós, povo, conhecendo de perto onde nos dói e o que precisa de ser feito. E que nos representam e, por isso, são também a nossa voz.

E agora leiam a noticia com que partilho este post e conheçam o Jorge: o político que representa a minha causa, por ser tanto e também a dele.

Sem comentários:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...