O meu coração é um freguês do Lidl que passeia naqueles corredores centrais cheios de bugigangas à espera de aparecer uma quinquilharia que nunca me ocorreria que viesse a precisar mas que, a partir daquele momento, não consigo imaginar a minha vida sem tal inutilidade. E embora tenha tudo em casa, domine os sítios onde está tudo guardado, tenha moldado o sofá e as almofadas ao meu corpo e os tapetes e os chinelos aos meus pés deformados, o meu coração vai sempre lembrar-se que precisa de uma máquina de cortar pelos do nariz. Colorida, embora a cor não faça falta para nada e com certificação iso9001 e tudo.
Só que a verdade, verdadinha, é que eu nem sequer tenho pêlos no nariz.
sábado, 29 de fevereiro de 2020
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
Os meus amigos podem não ser melhores que os vossos, mas terão certamente um sentido de humor mais peculiar # 45
A propósito deste post, recebo uma mensagem do meu amigo Rogério a dizer: "Toma, mostra lá isto à tua filha".
E isto era... isto:
E isto era... isto:
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020
Ana, a maravilhosa introvertida
Sou extrovertida, animada, barulhenta, divertida e popular. Ocupo muito espaço nas relações (o que, na maioria das vezes, nem sequer é uma coisa boa), sou impulsiva, impaciente e hiperactiva, gosto de estar no centro das atenções e posso parecer “over” em tantas e tantas outras situações. Por outro lado sou a rainha das festas: conto piadas, distribuo temas de conversa, lanço os foguetes e apanho a cana.
As pessoas sentem-se, geralmente, animadas na minha presença. Sou muito auto-confiante nas relações interpessoais e altamente empática.
Em todas as procuras de emprego, depois de passar a triagem curricular, safei-me sempre nas entrevistas presenciais, muito mais pelas minhas competências sociais do que pelas hard skills. Ser extrovertida abre muitas portas. O mundo está feito para os extrovertidos e se colocarmos uma conotação positiva/negativa nestes traços de personalidade, a extroversão será sempre encarada, no senso comum, como o o traço de personalidade positivo. As pessoas adoram os miúdos descarados e fala-baratos, os mais comunicativos e sem medo de se exporem, os que gostam de palco. Os miúdos extrovertidos arrancam gargalhadas, dão pica e conversa e fazem os adultos sentirem-se divertidos e felizes.
Daí que quando engravidei projectei a Ana assim, barulhenta, divertida e destrambelhada, ruidosa e sociável como eu. A Ana sempre foi uma bebé tranquila, chorava quando precisava de alguma coisa, aninhava-se no meu colo e ali aguentava muito tempo feliz e contemplativa e nunca gostou de andar de colo em colo- "ai que a menina estranha toda a gente!"- só no meu, do pai, da avó e da tia. Nunca foi uma miúda que sorrisse indiscriminadamente nem uma criança “dada”, e não fosse ser factualmente uma bebé Nestlé, não era uma bebé que apetecesse, que cativasse.
Um dia no colégio, tinha três anos, vi-a a brincar sozinha e inquiri a educadora: que aquele era um comportamento regular, que odiava ambientes de grupo confusos e de disputa, que não tinha paciência para negociar brinquedos e que não precisava da aprovação dos pares nem cedia à pressão social . Fiquei com o coração apertado, se me visse sozinha aos três anos na creche, sentir-me-ia perdida e abandonada e ai minha rica filha.
A timidez, ou a introversão como lhe chamo eu, não era na altura- como não continua a ser- um problema para a Ana.
Custou-me a entender que o estar sozinha não acarreta qualquer sofrimento para a Ana e que não só não evita ,como procura, muitas vezes, ambientes tranquilos e recatados, onde se predispõe a criar, a brincar, a testar e a descobrir o Mundo, sem pressões externas, sem ritmos impostos pelos outros sem negociação.
A Ana não aprecia grandes grupos com muitas interações, não gosta de dispersar, privilegia ter uma amiga ou duas de referência e investe, aprofundadamente, nessas relações ao invés de dispersar tempo, atenção e energia em grupos com mais elementos. Também não gosta de conversas de circunstância, recusa desde sempre a dar beijos a estranhos (e nós nunca a obrigámos) e, se puder, não esboça mais que um sorriso quando se metem com ela. E metem-se muito, o que a incomoda grandemente.
Ao princípio custou-me empatizar com a Ana e cai no erro de a empurrar para o comportamento esperado e socialmente desejável. Foi para mim durante muito tempo uma espécie de conflito interno, assente num receio inconsciente de que a Ana fosse diferente, se sentisse diferente e que isso lhe trouxesse sofrimento. Que, por ser tímida e reservada, a vida lhe fosse mais difícil. Com base neste medo quase caí no erro de achar que a Ana teria que gostar ou teria que se adaptar a uma maioria, para que não fosse excluída, marginalizada ou apenas desajustada ou inadaptada.
Obrigá-la a interações sociais forçadas, insistir no “dá um aperto de mão ao senhor!”, “vai lá brincar com os meninos ali no parque infantil” e colocá-la em contextos desportivos ou artísticos que implicassem interação social: tentei de tudo.
A Ana continuava a não se sentir confortável.
A pôr-se debaixo do meu sovaco de cada vez que se queria ver livre de uma situação indesejável, a olhar para o chão e a emburrar. E eu a repreendê-la, quando ficávamos sozinhas, e a instruí-la sobre normas sociais com estranhos que nunca mais veríamos, pessoas com que nos cruzamos mas com quem só temos micro-interações, dizer-lhe que tinha que ser mais simpática.
E a pensar que as pessoas- todas- a achariam mal educada e no fundo era “about me”: uma mãe incompetente que não obriga a filha a ser cativante e fofinha e, por isso, querida e gostada por todos. Popular e cativante.
E um dia caiu-me a moeda: eu estava a dar sinais, inconscientes, à minha filha de seis anos, de que tinha deixar de ser ela, de ser como é, para corresponder às expectativas dos outros. Dos outros que não nos interessam grande coisa porque, para os que ela ama e verdadeiramente lhe importam, o comportamento é sempre de profunda proximidade e amor dedicado. Que era mais importante os outros, os estranhos, elogiarem a sua simpatia e validarem em como era um amor de criança do que a fazer sentir-se confortável.
Quarailho, estava a privilegiar as expectativas dos outros e a aprovação social ao bem estar emocional da minha filha!
E passei a adoptar outra estratégia, que era a de deixá-la gerir as relações sociais como entende, sem a repreender ou forçar, mas justificando-a a terceiros, como que a defendê-la de julgamentos alheios e juízos de valor, a pedir que “não a levassem a mal”: “ah, a Ana é tímida, sabe?!” ou “não sai nada a mim que sou uma galhofeira”. A expô-la, portanto. A justificá-la sem qualquer sentido.
Até que me fartei: deixei de justificar a introversão da minha filha e abraço-a e celebro-a.
Sou uma mãe extrovertida e tenho uma filha introvertida. Aprendi, a custo, o importante que é respeitar as características da Ana, não a extrovertoevangilizando e estando sempre a tentar que se adapte a contextos ou comportamentos que pedem extroversão. Da mesma forma que se fosse uma mãe introvertida e tivesse um filho mais extrovertido, também não deveria impedi-lo ou castrá-lo na sua necessidade, igualmente legítima, de socialização.
Ser extrovertido não é bom da mesma maneira de que ser introvertido não é mau. Introversão e extroversão não são sequer traços de personalidade opostos: fazem parte do mesmo continuum e toda a gente é, simultaneamente, extrovertida e introvertida, sendo apenas um dos traços o dominante e o outro o recessivo. É um espetro, portanto. E que maravilhoso e diverso que isso representa!
A Ana é criativa e independente. Sensível e bondosa. Não é influenciável nem sente pressão social. Não precisa de agradar ninguém. É obstinada e confiável. Quando escolhe alguém dedica-lhe todo o seu amor e faz tudo por essa pessoa. E não escolhe muita gente, por isso, só pessoas muito especiais entram no mundo da Ana. Não dispersa, é observadora e boa ouvinte, atenta aos detalhes e discreta. Lida bem com a frustração e não valoriza a opinião de terceiros que não legitima. Conhece-se bem e é auto-confiante. É muito subtil e tem um sentido de humor acutilante. Não precisa de palco: tem os aplausos dentro de si e é a criança mais generosa e empática que conheço. É muito dedicada à família. Não é impulsiva e é ponderada na tomada de decisões, tendo uma sensatez fora do normal para a sua idade. É muito perspicaz e óptima a resolver problemas. Aprecia leitura, arte, música. E retira muito prazer em atividades solitárias: gosta mesmo muito da sua própria companhia. Aprecia o silêncio, a organização, ambientes estruturados. Adora escrever, fazer jardinagem e, ainda por cima sendo filha única, tem uma imaginação brutal nas suas brincadeiras. Acredita em fadas e unicórnios e tem estratégias de coping incríveis. É independente e livre. Muito livre.
É a timidez da Ana que traz todas estas características fantásticas que fazem dela a miúda espantosa que é.
Então da próxima vez que lhe dizerem “então: não falas?” ou “o gato comeu-te a língua” pensem que isso é tão rude como mandar calar um extrovertido. Da próxima vez que lhe disserem “ai és tão bonita mas depois és tão antipatica” ou “aí Ana: és tão bichinho do mato!”: ide para o real caralho.
Eu aprendo todos os dias com a Ana: a ser mais calma, mais ponderada, melhor ouvinte, mais paciente, a respeitar o tempo e o espaço do outro.A gostar mais de mim e da minha própria companhia.
Há muito que aprender com os introvertidos, embora o Mundo esteja feito à medida de nós, os como eu, os extrovertidos, os carismáticos e barulhentos.
A introversão da Ana não era nada que eu alguma vez projectasse mas, hoje, não a trocava por nada.
Porque é ela que faz da minha filha o ser maravilhoso que é.
Só não a chateiem na rua, tá?
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Ana, a herege
A minha mãe mostra à Ana uma imagem dos Três Pastorinhos e conta-lhe a história da aparição de Fátima.
"Avó: e porque é que a Lúcia está zangada?"
"Ó Ana, a Lúcia não está zangada!"
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
Ana, a chiba
"Avó, sabes que a Bárbara gosta de homens muito mais velhos?"
"Ahn? Como assim, Ana?"
"Então, avó, a Bárbara tem sete anos e já gostou do irmão da Madalena. que está no quinto ano! No quinto ano já tem 10 anos, avó! Dez anos!"
...
"Ahn? Como assim, Ana?"
"Então, avó, a Bárbara tem sete anos e já gostou do irmão da Madalena. que está no quinto ano! No quinto ano já tem 10 anos, avó! Dez anos!"
...
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020
Papoilas e amor
Neste Carnaval ensinei a Ana a desenhar uma macaca no chão usando
apensas uma pedra pontiaguda, expliquei-lhe o que era ironia e treinámos
mais de meia hora o jogo que eu inventei para treinar ironia e que se
chama #sóquenão,
ensinei-lhe o que é uma duna e a magia de subir até ao topo duma e
descer a rebolar e cantámos juntas a música do Reininho, ensinei -lhe o
jogo da mamã dá licença, ensinei-lhe o sabor da erva azeda e não gostou
tal como eu não gosto, ensinei-lhe que
borboletas podem ser confundidas com fadas que nos protegem e, sem ela
saber, ensinei-lhe que as mentiras de mãe um dia serão compreendidas e
perdoadas, ensinei-lhe o que era um narciso do rio, juncos e lampreias e
que os mosquitos são o animal mais chato do Mundo, ensinei-lhe a
diferença entre um pato e um ganso e que com uma cana ou um pau as
caminhadas se fazem melhor, ensinei-lhe a beleza de um ramo de papoilas e
a secá-las no meio de folhas de um livro pesado e que temos que voltar a
fazer um herbário, ensinei-lhe que os gansos voam sempre em bando e que
as teias de aranha são a construção mais complexa do mundo, ensinei-lhe
o sabor da bolacha americana e o cheiro da Vagueira, ensinei-lhe que
para jogar uno convém arrumarmos o baralho todo por cores e qual a forma
das lagartas antes de virarem borboletas, ensinei-lhe o sabor do
orvalho roubado à pele de uma folha e a dor das urtigas nos dedos,
ensinei-lhe que ler ao sol numa varanda virada para o lago é catártico e
que as viagens de carro passam mais depressa se formos a cantar,
ensinei-lhe o que é uma casa de um guarda florestal e que dormir no meio
dos pais é a memória mais quente e íntima de toda a infância.
Ensinei-lhe pouco, neste Carnaval, comparado com o que ela me ensinou
que foi e é sempre tudo sobre o amor.
sábado, 22 de fevereiro de 2020
Ó Ana, não corra tanto, plamordedeus!
O sonho de qualquer mãe beta: a filha loira de olhos azuis, o
labrador ou golden retriever ou cão ou lá o que é a marca do bicho e a
praia.
Que nossa senhora dos sapatos de vela me proteja.
Que nossa senhora dos sapatos de vela me proteja.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020
Ana, a fonética baralhada
Eu a propósito do registo do nosso fim-de-semana no seu diário gráfico: “Sabes aquelas açoteias que vimos no Algarve, Ana?!”~
Ana dá um belinha na própria testa e exclama: “é isso mesmo, mãe: o nome da nova auxiliar é açoteia!
(Pausa)
“Ou Soraia. É qualquer coisa assim...”
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