quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Ana, a maravilhosa introvertida



Sou extrovertida, animada, barulhenta, divertida e popular. Ocupo muito espaço nas relações (o que, na maioria das vezes, nem sequer é uma coisa boa), sou impulsiva, impaciente e hiperactiva, gosto de estar no centro das atenções e posso parecer “over” em tantas e tantas outras situações. Por outro lado sou a rainha das festas: conto piadas, distribuo temas de conversa, lanço os foguetes e apanho a cana. 
As pessoas sentem-se, geralmente, animadas na minha presença. Sou muito auto-confiante nas relações interpessoais e altamente empática. 

 Em todas as procuras de emprego, depois de passar a triagem curricular, safei-me sempre nas entrevistas presenciais, muito mais pelas minhas competências sociais do que pelas hard skills. Ser extrovertida abre muitas portas. O mundo está feito para os extrovertidos e se colocarmos uma conotação positiva/negativa nestes traços de personalidade, a extroversão será sempre encarada, no senso comum, como o o traço de personalidade positivo. As pessoas adoram os miúdos descarados e fala-baratos, os mais comunicativos e sem medo de se exporem, os que gostam de palco. Os miúdos extrovertidos arrancam gargalhadas, dão pica e conversa e fazem os adultos sentirem-se divertidos e felizes. 

 Daí que quando engravidei projectei a Ana assim, barulhenta, divertida e destrambelhada, ruidosa e sociável como eu. A Ana sempre foi uma bebé tranquila, chorava quando precisava de alguma coisa, aninhava-se no meu colo e ali aguentava muito tempo feliz e contemplativa e nunca gostou de andar de colo em colo- "ai que a menina estranha toda a gente!"- só no meu, do pai, da avó e da tia. Nunca foi uma miúda que sorrisse indiscriminadamente nem uma criança “dada”, e não fosse ser factualmente uma bebé Nestlé, não era uma bebé que apetecesse, que cativasse. 

 Um dia no colégio, tinha três anos, vi-a a brincar sozinha e inquiri a educadora: que aquele era um comportamento regular, que odiava ambientes de grupo confusos e de disputa, que não tinha paciência para negociar brinquedos e que não precisava da aprovação dos pares nem cedia à pressão social . Fiquei com o coração apertado, se me visse sozinha aos três anos na creche, sentir-me-ia perdida e abandonada e ai minha rica filha. 

 A timidez, ou a introversão como lhe chamo eu, não era na altura- como não continua a ser- um problema para a Ana. Custou-me a entender que o estar sozinha não acarreta qualquer sofrimento para a Ana e que não só não evita ,como procura, muitas vezes, ambientes tranquilos e recatados, onde se predispõe a criar, a brincar, a testar e a descobrir o Mundo, sem pressões externas, sem ritmos impostos pelos outros sem negociação.
A Ana não aprecia grandes grupos com muitas interações, não gosta de dispersar, privilegia ter uma amiga ou duas de referência e investe, aprofundadamente, nessas relações ao invés de dispersar tempo, atenção e energia em grupos com mais elementos. Também não gosta de conversas de circunstância, recusa desde sempre a dar beijos a estranhos (e nós nunca a obrigámos) e, se puder, não esboça mais que um sorriso quando se metem com ela. E metem-se muito, o que a incomoda grandemente.

 Ao princípio custou-me empatizar com a Ana e cai no erro de a empurrar para o comportamento esperado e socialmente desejável. Foi para mim durante muito tempo uma espécie de conflito interno, assente num receio inconsciente de que a Ana fosse diferente, se sentisse diferente e que isso lhe trouxesse sofrimento. Que, por ser tímida e reservada, a vida lhe fosse mais difícil. Com base neste medo quase caí no erro de achar que a Ana teria que gostar ou teria que se adaptar a uma maioria, para que não fosse excluída, marginalizada ou apenas desajustada ou inadaptada. Obrigá-la a interações sociais forçadas, insistir no “dá um aperto de mão ao senhor!”, “vai lá brincar com os meninos ali no parque infantil” e colocá-la em contextos desportivos ou artísticos que implicassem interação social: tentei de tudo. 

A Ana continuava a não se sentir confortável. 

A pôr-se debaixo do meu sovaco de cada vez que se queria ver livre de uma situação indesejável, a olhar para o chão e a emburrar. E eu a repreendê-la, quando ficávamos sozinhas, e a instruí-la sobre normas sociais com estranhos que nunca mais veríamos, pessoas com que nos cruzamos mas com quem só temos micro-interações, dizer-lhe que tinha que ser mais simpática.
E a pensar que as pessoas- todas- a achariam mal educada e no fundo era “about me”: uma mãe incompetente que não obriga a filha a ser cativante e fofinha e, por isso, querida e gostada por todos. Popular e cativante. 

 E um dia caiu-me a moeda: eu estava a dar sinais, inconscientes, à minha filha de seis anos, de que tinha deixar de ser ela, de ser como é, para corresponder às expectativas dos outros. Dos outros que não nos interessam grande coisa porque, para os que ela ama e verdadeiramente lhe importam, o comportamento é sempre de profunda proximidade e amor dedicado. Que era mais importante os outros, os estranhos, elogiarem a sua simpatia e validarem em como era um amor de criança do que a fazer sentir-se confortável.
 Quarailho, estava a privilegiar as expectativas dos outros e a aprovação social ao bem estar emocional da minha filha! E passei a adoptar outra estratégia, que era a de deixá-la gerir as relações sociais como entende, sem a repreender ou forçar, mas justificando-a a terceiros, como que a defendê-la de julgamentos alheios e juízos de valor, a pedir que “não a levassem a mal”: “ah, a Ana é tímida, sabe?!” ou “não sai nada a mim que sou uma galhofeira”. A expô-la, portanto. A justificá-la sem qualquer sentido. 

 Até que me fartei: deixei de justificar a introversão da minha filha e abraço-a e celebro-a. 

Sou uma mãe extrovertida e tenho uma filha introvertida. Aprendi, a custo, o importante que é respeitar as características da Ana, não a extrovertoevangilizando e estando sempre a tentar que se adapte a contextos ou comportamentos que pedem extroversão. Da mesma forma que se fosse uma mãe introvertida e tivesse um filho mais extrovertido, também não deveria impedi-lo ou castrá-lo na sua necessidade, igualmente legítima, de socialização. 

Ser extrovertido não é bom da mesma maneira de que ser introvertido não é mau. Introversão e extroversão não são sequer traços de personalidade opostos: fazem parte do mesmo continuum e toda a gente é, simultaneamente, extrovertida e introvertida, sendo apenas um dos traços o dominante e o outro o recessivo. É um espetro, portanto. E que maravilhoso e diverso que isso representa! 

A Ana é criativa e independente. Sensível e bondosa. Não é influenciável nem sente pressão social. Não precisa de agradar ninguém. É obstinada e confiável. Quando escolhe alguém dedica-lhe todo o seu amor e faz tudo por essa pessoa. E não escolhe muita gente, por isso, só pessoas muito especiais entram no mundo da Ana. Não dispersa, é observadora e boa ouvinte, atenta aos detalhes e discreta. Lida bem com a frustração e não valoriza a opinião de terceiros que não legitima. Conhece-se bem e é auto-confiante. É muito subtil e tem um sentido de humor acutilante. Não precisa de palco: tem os aplausos dentro de si e é a criança mais generosa e empática que conheço. É muito dedicada à família. Não é impulsiva e é ponderada na tomada de decisões, tendo uma sensatez fora do normal para a sua idade. É muito perspicaz e óptima a resolver problemas. Aprecia leitura, arte, música. E retira muito prazer em atividades solitárias: gosta mesmo muito da sua própria companhia. Aprecia o silêncio, a organização, ambientes estruturados. Adora escrever, fazer jardinagem e, ainda por cima sendo filha única, tem uma imaginação brutal nas suas brincadeiras. Acredita em fadas e unicórnios e tem estratégias de coping incríveis. É independente e livre. Muito livre. 

 É a timidez da Ana que traz todas estas características fantásticas que fazem dela a miúda espantosa que é. Então da próxima vez que lhe dizerem “então: não falas?” ou “o gato comeu-te a língua” pensem que isso é tão rude como mandar calar um extrovertido. Da próxima vez que lhe disserem “ai és tão bonita mas depois és tão antipatica” ou “aí Ana: és tão bichinho do mato!”: ide para o real caralho.

 Eu aprendo todos os dias com a Ana: a ser mais calma, mais ponderada, melhor ouvinte, mais paciente, a respeitar o tempo e o espaço do outro.A gostar mais de mim e da minha própria companhia. Há muito que aprender com os introvertidos, embora o Mundo esteja feito à medida de nós, os como eu, os extrovertidos, os carismáticos e barulhentos. 

A introversão da Ana não era nada que eu alguma vez projectasse mas, hoje, não a trocava por nada. Porque é ela que faz da minha filha o ser maravilhoso que é.
 Só não a chateiem na rua, tá?

4 comentários:

Susana Tavares disse...

Revejo-me tanto nesta publicação e acima de tudo revejo a minha Ana, gosta do seu espaço, tem as suas 2ou 3amigas especiais das quais cuida, se dedica.... Adora livros, música.... Mas não é de cumprimentar ninguém na rua, franze o olho, olha para o chão com a cara de amuo e encosta-se a mim, como em busca de segurança, durante muito tempo forcei os beijinhos até que comecei a deixar de dar importância a essas imposições sociais, e digo "se ela quiser ela dá" ficam a olhar para mim com aquela cara "sinceramente... Deixa-a fazer o que quiser que nunca mais a seguras!" Eu não a quero segurar quero apenas que seja livre de ser feliz à sua maneira e ser respeitada por isso! Obrigada pela sua partilha , foi muito importante para mim ler este desabafo!

Custódia C. disse...

Mais uma vez a concordar contigo na íntegra! Eu também sou como tu, extrovertida, sociável e sempre na cabeça da festa (com tudo o que tem de bom e de mau e agora que já sou mais crescida até já me controlo um pouco mais) mas compreendo tão bem a Ana e outros miúdos como ela. Sempre me afligiu a forma como se forçam muitas vezes os miúdos a ser simpáticos, a fazer conversa, a dar um beijo, muitas vezes só para nós, adultos, não ficarmos mal na fotografia. Incomoda-me e muito quando presencio esse tipo de cenas. Também temos que dar liberdade e possibilidade de escolha aos miúdos. Eles por vezes são tão assertivos. Há que respeitá-los. Isto, claro, não invalida que quem tem essa responsabilidade, deva estar atento para perceber as diferenças entre a personalidade da criança e um qualquer possível distúrbio...

Paula Viegas disse...

Neste caso, sou mãe, mas sou eu a tímida.
Adorei o texto, que foca precisamente aquilo que parece invisível à maioria das pessoas. Ser tímido/introvertido é encarado como um defeito, e muitas sinónimo de antipático, mal encarado, arrogante, estranho, enfim alguns dos adjectivos com que tenho sido presenteada ao longo da vida. Pode ser um entrave na vida pessoal e profissional.
Não queria fazer um comentário tão negativo, mas a minha experiência não tem sido fácil, isto numa perspectiva social. Numa perspectiva estritamente pessoal não tenho qualquer problema e inclusive gosto de estar sozinha, detesto conversa de circunstância e dedico-me a 100% à meia dúzia de pessoas que amo incondicionalmente.
Só mais uma nota coincidente, a minha mãe também é extrovertida e toda a gente simpatiza facilmente com ela. Bj a ambas e obrigada por olhares para a timidez com amor

SJ disse...

Obrigada por tudo isto, obrigada por entenderes, obrigada. Fui massacrada a infância toda por não ser extrovertida. Obrigada por explicares às pessoas que não é preciso sermos iguais para aceitarmos os outros.

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