Como vive uma criança sem pai? Pergunto-me muitas vezes, olhando para os outros que conheço sem pai, mas olhando especialmente para dentro.
Eu tinha um pai. Era divertido, presente, falador e extrovertido, brincalhão mas, acima de tudo, era o meu. Um dia ele foi embora e eu fiquei com um espaço vazio para sempre.
Cresce-se sem pai. Sobrevive-se sem pai. Aprende-se sem pai. Até se pode ser feliz sem pai. Estou aqui a comprová-lo.
Mas cresce-se a pensar que não se é importante o suficiente para o pai ter escolhido ficar. Sobrevive-se a pensar que um dia talvez se consiga compreender o porquê, se consiga explicar como aconteceu, entender razões, não ser culpa nossa que os adultos confundissem conjugalidade com parentalidade, atirar as culpas para quem escolheu não nos escolher; sobrevive-se a tentar preencher esse espaço vazio com outras figuras de referência, a mãe que também é pai mas que nunca consegue ser, coitada, é um puzzle e o formato dela não encaixa naquele buraco, o avô que até é homem mas que nunca consegue ser pai por ternura a mais, gap geracional, os avôs nunca conseguem ser os mais fortes. E aprende-se que esse espaço vazio nunca se preenche porque é uma amputação no crescimento e tudo o resto são próteses para a alma, e a alma aprende a andar mas o campeonato é outro, não é a mesma velocidade, a mesma estrutura emocional, não é a mesma certeza de amor inabalável. Não se cura. Não se preenche. Não se substitui.
Aprende-se a ser feliz sem pai. Estou aqui a comprová-lo. Sou uma pessoa feliz, contente com quem é e com o modo como a vida vai correndo.
Quando os vejo - Rui e Ana- percebo o bom que deve ser esse amor que vocês falam, os posts com as fotografias dos vossos pais no dia do Pai, essa estrutura firme e rochosa do amor entre pais e filhos (ah, e filhas ..) e fico com pena.
Não apenas de não viver isso igual mas com muita pena do meu pai ter escolhido que não queria viver isso comigo. Não foi só ele que perdeu. Fomos os dois.
Mas eu ganhei a minha mãe que também foi pai, o meu avô, os meus tios. E agora o Rui. Foram todos eles que me ensinaram a ser feliz, querida, amada, importada e importante mesmo sem pai. O amor regenera.
Obrigada.
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