Cortei e andei meses seguidos a chorar porque ele demorava a crescer e queria voltar a ser igual a sempre e chego ao fim do ano com ele comprido e a suspirar que se calhar deveria cortá-lo outra vez para experimentar voltar a ser diferente.
sábado, 21 de dezembro de 2019
sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
Chove, como na rua, em mim.
Ali estava eu: diante do meu próprio
velório.
No marido dela o Rui: desorientado, perdido, vazio, arrasado
como se o vento da morte da mulher tivesse vindo com a tempestade que
atrasava a vinda de mais gente a prestar as últimas homenagens. 50 anos.
Tinha 50 anos e uma velhice pela frente que nunca chegou a viver e eu
agora não sei como vai ser, ela foi sempre primeiro, abria sempre o
caminho, contava-me como era, sem romantizações nem pessimismos: a
realidade.
A filha ia-nos recebendo um a um, com cortesia e uma
maturidade que não se encontra em ninguém com 20 anos. A minha projeção
da Ana na filha dela: ser filho de uma pessoa com deficiência torna os
miúdos em seres diferentes. Não especiais: apenas diferentes. A Rita
nunca corria desenfreadamente quanto era pequena e um dia com a Ana ao
colo perguntei-lhe como tinha conseguido ela essa proeza da miúda nunca
lhe fugir, que sorte que tinha, imagina que fugia, a aflição que seria
não poderes correr para a apanhar à custa da cadeira de rodas e eu, que
não sou veloz na corrida, que não aguento tempos infinitos em pé com ela
ao colo, como vou fazer? “Os filhos fazem-se aos pais que têm”-
disse-me a Dulce, agora ali à minha frente num caixão frio de madeira.
Na Rita a Ana: madura, pragmática, objectiva, com uma força que não
reconheço em mais filhos de ninguém. Os meus amigos a chegarem: o
Filipe, o Luis.
A Dulce tornou tudo possível quando o futuro de mulheres
com deficiência era uma incerteza: era possível trabalhar e ser
auto-suficiente, era possível viver sozinha, era possível casar, era
possível ser mãe. E agora que eu já sou tudo isso, porque a Dulce
confortou a minha ansiedade, porque estreou todas as possibilidades,
quem me vai contar o futuro? Não sei, agora, como é possível ser
velhinha, como se gere o síndrome do ninho vazio, como é ser avó,
como é viver com corpos enrugados e artroses e no fim como é pensar que a
morte vai chegar porque a vida já está cheia, preenchida, completa.
A
Dulce morreu e não tenho a minha referência e em quem me projectar. E,
pela primeira vez, o futuro parece-me desconhecido e incerto. A Dulce
morreu e já não tenho quem me faça spoiling à vida.
Chove, como na rua,
em mim.
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
quarta-feira, 4 de dezembro de 2019
AçoriANA
“O Pico continua a ser a minha ilha preferida, mãe!”
“Porquê, Ana?”
“São Jorge cheira a casa, a Terceira cheira a mel, São Miguel cheira a àgua mas, ó mãe, o Pico cheira a nuvens!”
sábado, 30 de novembro de 2019
Quasi-fecho de 2019
O final de 2019 foi uma espécie de auto-redenção.
Decidi deixar de procrastinar e tomar a rédea de muitas coisas pendentes e para as quais me faltava energia, motivação ou fé de que conseguiria fazer, avançar ou mesmo alcançar.
Depois voltei a ficar doente e tinha tudo para me auto-boicotar e - oh senhores!- se eu sou especialista no auto-boicote.
Mas bastou mexer uma peça para tudo se desalinhar e eu ter-me visto na obrigação de agir. Tipo dominó. Mesmo.
Foi o novo trabalho, que trouxe uma nova rotina, uma nova colega (gosto tanto dela), novos assuntos, novas aprendizagens. E, de repente, um novo eu se debruçou perante mim mesma. E vieram coisas a seguir.
Num instante (relativo) resolvi de forma assertiva o problema de saúde, sem hesitações nem pudores. Decidi que não queria gastar energia com relações difíceis e deixei gente para trás sem arrependimento nem temores mas também sem zanga nem raiva ou rancor. E decidi que ia recuperar a única amizade antiga cuja perda me feria estruturalmente e estamos num processo apaziguador e quentinho de reaproximação. Decidi que escrever me fazia mesmo falta e ressuscitar o blog, sem pressões nem auto-cobranças, com a liberdade que tanto me dá prazer. E comprar um sofá grande, enorme, onde possamos ver televisão os três aninhados e enrolados uns nos outros e jogar jogos de tabuleiro lá em cima sentados à chinês e tudo o que nos apetecer. E escolhi a forma como quero entrar nos meus 40 anos.
Falta agarrar em um ou dos temas pelos cornos, mas sinto que estou a caminho.
E agora voltei a ser loira que é como me sinto mais eu e, sendo a questão mais frívola de todas, talvez represente tudo aquilo que vos quero dizer. Fez-se assim uma espécie de luz: dentro e fora da cabeça.
Em mim.
terça-feira, 26 de novembro de 2019
Ana, a tocar-me nas feridas desde 2012
"Mãe, tens medo de tigres?"
Não.
"E de alturas?"
Não.
"E de cobras?"
Não.
"E de sítios fechados?"
Não.
"E de ratos e ratazanas?"
Não.
(Faz a pausa e um sorriso de quem tem uma carta invencível na manga)
" E da avó?"
Não.
"E de alturas?"
Não.
"E de cobras?"
Não.
"E de sítios fechados?"
Não.
"E de ratos e ratazanas?"
Não.
(Faz a pausa e um sorriso de quem tem uma carta invencível na manga)
" E da avó?"
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domingo, 24 de novembro de 2019
Ana, a comentadora oficial do The Voice
“Ó mãe, mas o Joker trabalha em todo o lado?!”
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sábado, 23 de novembro de 2019
Ana, a anti-discurso motivacional
"A avó disse que bastava eu querer muito uma coisa e tornava-se possível mas é tão mentira: bem que eu podia querer lamber o meu próprio cotovelo que tinha cá uma sorte..."
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quarta-feira, 20 de novembro de 2019
A primeira quadripolarização do come back
"Olá Pólo Norte.
Tirei esta foto em Maio, no Quirguistão, no dia em que dormi com uma família nómada, num yurt.
Não cheguei a enviar porque o blogue estava sem actividade, mas agora que voltou (felicidade!), vamos dar continuidade a esta cruzada quadripolar!
Continue desse lado, que nós, deste, lemos e agradecemos.
Beijinhos"
O Mundo divide-se ...
... entre as pessoas que acham que as piores reuniões da vida são as de pais nas escolas das crias e as que acham que são as de condomínio com os vizinhos de prédio.
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