"O Governo não pediu estado de emergência. As medidas que acaba de anunciar não precisavam de estado de emergência. Portanto, a decisão presidencial, depois da pressão mediática, foi só a reacção de um Presidente que estava em pânico depois das trapalhadas das últimas semanas e que continuará assustado com a brutalidade de um candidato presidencial que se aproveita dos medos colectivos. Espero mesmo que tudo isto não se venha a revelar um erro político monstruoso. É que depois da pandemia gostava que a democracia e as suas instituições ainda tivessem alguma normalidade. "
quinta-feira, 19 de março de 2020
quarta-feira, 18 de março de 2020
Coping em tempos de cólera
Há pessoas que quando estão assustadas, com medo, ansiosas ou frágeis congelam. Ficam ali a cismar, sem conseguir agir, enterradas nas preocupações, com insónias e falta de apetite. A maioria das pessoas que conheço ficam assim e acho que, por serem a maioria, se considera que esta é a forma socialmente desejável de se sentir (mostrar?) sofrimento.
Já eu quando estou triste, angustiada, preocupada, perdida ou ansiosa tenho duas respostas: primeiro começo a ser hiperactiva e exploro todas as opções que consigo controlar de forma desenfreada até as esgotar; segundo não dispenso nenhuma gota extra de energia sobre coisas que não controlo. E durmo, muito, como se o meu cérebro se quisesse poupar, numa espécie de reboot e armazenar energia para quando ela for mesmo útil. As pessoas não são muito empáticas por quem não se mostra down, na merda e - muito menos- por quem dorme durante o caos.
Eu durmo.
Pensei que seria essa a minha resposta a este stress que o vírus trouxe à vida de todos mas, Maslow existe, e fiquei doente ( e não foi somático: fiquei mesmo doente). E por isso (e por ser grupo de risco) estou em isolamento e numa serenidade que complica a maioria das pessoas que conheço. As estratégias de coping são as respostas de cada pessoa para lidar com situações extremas de stress externas ou internas.
Não há estratégias padrão ou universais para lidar com o stress. Tal como há diferentes formas para se fazer bolos.
Não julguemos quem se orienta para a regulação da emoção como não julguemos quem adopta estratégias de resolução do problema. É, mais que nunca, a altura de aproveitarmos o período de isolamento para nos conhecermos melhor uns aos outros, com o tempo que o dia a dia, o trânsito, os relógios e o que fazemos para jantar, não nos permite.
Mas, sobretudo, aproveitemos este tempo para nos conhecermos melhor. A nós próprios.
E seja qual for a forma que tenhamos disponível para nos auto-regularmos e pormos o bolo no forno. Há poucas coisas melhoras na vida que o cheirinho a bolo quente a sair do forno. E a certeza de que somos capazes de ultrapassar o stress e sairmos ilesos disto. E comermos o bolo sem culpa. Com o prazer de estar vivos.
Estaremos.
terça-feira, 17 de março de 2020
Nobody sait it was easy but caralho, men!
Há uma semana fomos almoçar ovos rotos ao rubro e eu ofereci às minhas amigas os presentes de Natal atrasados: umas canecas tolas feitas por mim. Adiamos encontros, andamos sempre de agendas desencontradas e damos por garantidas novas oportunidades de estarmos juntas, de nos abraçarmos, de partilharmos comida na mesma mesa, de rirmos cara a cara.
No dia seguinte voltámos a estar juntas num momento tristíssimo de uma de nós e mais uma vez suspendemos todos os planos e priorizámo-nos.
Eu, que não acredito em premonições, olho para as mensagens toscas que escolhi para cada uma delas. e para o facto de uma fatalidade nos ter juntado um dia depois, como um prenúncio dos tempos que, hoje, vivemos. Vai passar.
Nobody said it was easy (But caralho, men), vamos ter que gritar namastoda-se muitas vezes, mas enfim, sobreviveremos porque, no fim de contas, somos todos paleolitic survivers. Não vai ser fácil mas vamos superar. Vamos ter que viver dentro de casa, experimentar big brothers familiares duros e vamos ficar insuportáveis. Mas vivos, que é o que se quer.
Enquanto escrevo este post olho para a caneca que ficou por entregar à querida MEP e sorrio. A caneca que reza assim “Jesus ama-te porque não convive contigo”. Que com este convívio não nos deixemos de amar. Pelo contrário: que sobrevivamos com mais amor, mais sentido de urgência no amor, menos adiamentos de planos, de afectos, de beijos, abraços, olhos nos olhos e gargalhadas ao vivo que nunca mais daremos por garantidas.
A vida dá-nos sempre hipóteses de fazermos melhor.
Faremos.
quinta-feira, 12 de março de 2020
Ana, a confusa
"Ai mãe, a minha vida é uma confusão: como a catequese e o yoga são um dia a seguir ao outro nunca sei quando é que é para dizer ámen ou namaste"
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Mãegyver
quarta-feira, 11 de março de 2020
Ana, aos sete anos e bué dias
"Ó mãe, agora não dá! Estou no meu momento."
Volto a chamar, segunda vez.
"Deixa-me lá momentar mais um bocadinho, vá!"
Zango-me e começo a contar 1,2,2 e meio já para a banheira e ela segue à minha frente, injustiçada:
"Estás a ser momentosa!"
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segunda-feira, 9 de março de 2020
Ana, a literal
A professora da miúda reuniu a turma e fez uma brilhante e apaziguadora explicação sobre o Coronovirus, terminando com a recomendação mais inteligente de todas: o importante é lavar as mãos e bem e sem ser a despachar.
Para ilustrar isto, deu como referência que eles devem lavar as mãos enquanto cantam duas vezes a canção dos "Parabéns a você".
A modos que cheira-me que não há coronovirus que se cole à Ana pois, para além dela cantar desde a primeira estrofe do "Parabéns a você" até à última "uma salva de palmas", continua sempre com o "Obrigada, meus amigos, do fundo do coração, por me terem cantado esta linda canção", faz a onomatopeia dos aplausos, do sopro da vela olhando- se no espelho e no, fim, já a secar as mãos, reclama sempre com um "devíamos pôr uma vela aqui ao pé do lavatório para pedir um desejo quando acabo de lavar as mãos, não achas, mãe?"
São só 27538 minutos a lavar as mãos, coisa pouca.
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A minha vida é um prato de ovos rotos.
Uma espécie de metáfora da minha vida: batatas fritas alinhadas, presunto do melhor, o ovo no ponto certo mas o que mais queres na vida é desmanchar a gema do ovo, remexeres em todos os ingredientes, desalinhares todo o prato e chafurdares-te.
A minha vida é um prato de ovos rotos.
sexta-feira, 6 de março de 2020
Calma
Aos 20 anos a gente quer arrumar a vida: introduzir sonhos em Excel, somar conquistas, acumular experiências, encontrar as fórmulas certas para cada operação e que no final as contas todas batam certo. Se pudermos introduzir gráficos que provem que não há margem de erro é tratar, analisar e discutir os dados, tanto melhor. Não queremos que haja dúvidas de que estamos certos.
Esperamos aos trinta anos termos a folha de Excel imaculada e depois percebemos que a matemática não depende só de nós: há falhas de electricidade, vírus nos computadores da vida, actualizações no próprio Excel de versão 1.1 e quando passamos a dominá-la, já vai na 7.1. e estamos sempre atrasados, desactualizados, perdidos. Errados nas contas. Irremediavelmente errados. São as primeiras pessoas significativas que nos morrem, as casas que não conseguimos comprar, as rendas de aluguer que aumentam, as viagens que sonhámos fazer para as quais o dinheiro não chega, a vida que desgasta as relações, os empregos que já não são para a vida e a consciência plena de que há muitas coisas que dependem dos nossos conhecimentos em Excel mas há a sorte, o mundo, o acaso e tudo aquilo que não controlamos. A electricidade que falha.
Aos 30 fechamos as macros e as folhas e de repente somos mães e dizem-nos que a vida vai mudar e romantizam e é um paint irreal e ultrapassado. De Excel a paint- imagine-se o fail. E vendem-nos as aguarelas de que vamos tomar conta dos filhos e de repente são os filhos que tomam conta de nós, do nosso tempo, energia e planos. É duríssimo. “A maternidade é um esvaziar-se que transborda tudo”- li algures. É isto.
Aos 40 a gente até quer desarrumar a vida. Para os 40 quero um word onde possa escrever e deletar, activar o corrector automático e ignorar as sugestões, mudar estilos e números de fontes, contar palavras e arriscar em negritos, itálicos e sublinhados naquilo que importa. Construir a minha história. A minha. Mesmo que tenha -rev01 ou _rev100 na extensão dos nomes dos ficheiros guardados. Não preciso de contas nem cores. Só da história contada de forma corrida. A minha história.
Se tudo falhar que não me falte papel e caneta.
Nunca me esqueci de como é bom escrever à mão. O difícil é recomeçar.
quarta-feira, 4 de março de 2020
A parábola que se transformou numa metáfora e a morte de uma das principais figuras de estilo
Há exactamente sete anos andava fascinada com esta história. Contei-a aqui mas posso voltar a resumi-la:
"Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando todo tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de um lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço um no outro, e nunca mais se ver.
Vinte e três anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva a sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem que ela soubesse... e foi assim."
Ulay morreu esta semana.
Dei por mim, triste e melancólica, a pensar em tudo o que poderia ter sido se se abraçassem e tivessem caminhado juntos na mesma direcção da Muralha da China. Teriam só conhecido uma margem- a mesma- os dois ao invés de cada um conhecer cada pedacinho do lado oposto. Teriam perdido Mundo? Teriam ganho Mundo?
Terá acontecido o mesmo com eles? Digo isto no sentido de acontecer de forma interna. Em que se tornaram no caminho individual? No que se poderiam ter tornado no plural?
O amor pode, não resistindo, persistir? E quando a vida e o amor são coisas diferentes? E todas as possibilidades que não passaram disso? E toda a história que se concretizou sobre uma não concretização?
Muitas vezes, o amor é uma coisa e a vida é outra e isso é, simultaneamente triste e belo de tão triste que é. Uma contradição absolutamente estúpida.
Ulay morreu esta semana e com ele morreu tudo o que poderia ter acontecido.
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