domingo, 27 de março de 2022

Se calhar tenho que a inscrever numa arte marcial

 

A Ana quis ajudar-me a amaciar uns bifes de alcatra com o martelo da carne.

O almoço vai ser bolonhesa...

sábado, 19 de março de 2022

Como vive uma criança sem pai?

 

Como vive uma criança sem pai? Pergunto-me muitas vezes, olhando para os outros que conheço sem pai, mas olhando especialmente para dentro.
Eu tinha um pai. Era divertido, presente, falador e extrovertido, brincalhão mas, acima de tudo, era o meu. Um dia ele foi embora e eu fiquei com um espaço vazio para sempre.
Cresce-se sem pai. Sobrevive-se sem pai. Aprende-se sem pai. Até se pode ser feliz sem pai. Estou aqui a comprová-lo.
Mas cresce-se a pensar que não se é importante o suficiente para o pai ter escolhido ficar. Sobrevive-se a pensar que um dia talvez se consiga compreender o porquê, se consiga explicar como aconteceu, entender razões, não ser culpa nossa que os adultos confundissem conjugalidade com parentalidade, atirar as culpas para quem escolheu não nos escolher; sobrevive-se a tentar preencher esse espaço vazio com outras figuras de referência, a mãe que também é pai mas que nunca consegue ser, coitada, é um puzzle e o formato dela não encaixa naquele buraco, o avô que até é homem mas que nunca consegue ser pai por ternura a mais, gap geracional, os avôs nunca conseguem ser os mais fortes. E aprende-se que esse espaço vazio nunca se preenche porque é uma amputação no crescimento e tudo o resto são próteses para a alma, e a alma aprende a andar mas o campeonato é outro, não é a mesma velocidade, a mesma estrutura emocional, não é a mesma certeza de amor inabalável. Não se cura. Não se preenche. Não se substitui.
Aprende-se a ser feliz sem pai. Estou aqui a comprová-lo. Sou uma pessoa feliz, contente com quem é e com o modo como a vida vai correndo.
Quando os vejo - Rui e Ana- percebo o bom que deve ser esse amor que vocês falam, os posts com as fotografias dos vossos pais no dia do Pai, essa estrutura firme e rochosa do amor entre pais e filhos (ah, e filhas ..) e fico com pena.
Não apenas de não viver isso igual mas com muita pena do meu pai ter escolhido que não queria viver isso comigo. Não foi só ele que perdeu. Fomos os dois.
Mas eu ganhei a minha mãe que também foi pai, o meu avô, os meus tios. E agora o Rui. Foram todos eles que me ensinaram a ser feliz, querida, amada, importada e importante mesmo sem pai. O amor regenera.
Obrigada.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Não há forma certa de lidar com a guerra, porque fomos feitos de paz

Primeiro não conseguia dormir, remexia-me na cama, levantava-me, ia à cozinha beber água, via notícias no telemóvel, ia ao Twitter, ia ao quarto da Ana olhar para ela, imaginava se fossemos nós, abandonar tudo de material, no limite só nós temos uns aos outros, tudo o resto é matéria, mas a matéria dá conforto, calor, dá afecto, somos feitos de amor, por isso não sabemos lidar com a Guerra, porque fomos feitos para a Paz.

Doia-me a cabeça, as notícias na televisão sempre ligada, as actualizações pop up no telemóvel, as crianças nas imagens, a Ana em cada uma delas, é sempre sobre nós, nós nos outros, a empatia é sempre egoísta, o trabalho mais pesado, eu mais lenta, a cabeça a doer.

Decidi abrandar os estímulos, ver só televisão o fim do dia, desligar as actualizações do telemóvel, estaria a ser covarde? Estaria a fazer evitamento? A entrar em negação?

A guerra existia para além do que eu decidia, do que eu controlava- o que posso fazer para acrescentar sem me doer a cabeça, sem querer que a guerra me dê cabo da saúde mental?
Experimento diferentes estratégias, tento encontrar uma forma de lidar com isto, ponho mãos à obra, percebo como sempre que não consigo mudar o Mundo mas consigo ajudar devagarinho, uma pessoa de cada vez, coisas práticas, não preciso de fazer nada grandioso, pequenas coisas, pequenas ajudas, uma de cada vez, fazer o dia a dia de algumas pessoas avançar, já não me dói a cabeça, não vale de nada- bem sei...- a Guerra não acaba mas ao menos não me mato por dentro, isso não salva ninguém mas salva-me a mim, nos aviões ensinam-nos sempre que antes de metermos uma máscara de oxigénio às crianças que estão ao nosso lado temos que as metermos primeiro a nós.

Não há forma certa de lidar com a Guerra porque fomos feitos para a paz.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Ana, a pré-adolescente

 

Comprei-lhe tops. O corpo está a mudar e quero proporcionar-lhe conforto e suporte, quero fazer tudo certo, agora que eu já estava veterana em ser mãe de uma criança, tenho que aprender de novo a ser mãe. Duma pré -adolescente.
Sinto-me insegura mas quero tentar fazer tudo certo como quando comprei os biberões mais anatómicos, a cadeirinha do carro mais segura. Mas não há lojas @babyblue_pt para mães de pré -adolescentes, não há cursos de preparação para a adolescência, não há livros que nos guiem e eu só quero tentar fazer tudo certo.
Comprei-lhe tops e isso foi um gatilho de irritabilidade: começou a escalar, a embirrar com coisas triviais, a chorar, estava confusa e zangada e não sabia explicar o que sentia nem porque se sentia assim. Eu abracei-a: "foi por causa dos tops, Ana? Não tens que os vestir já, ficam só ali na gaveta para um dia que te apeteça vestir, quando te apetecer, sem pressão, pode ser no tempo que quiseres". Ela choramingava sem motivo aparente. Abracei-a com mais força: "És o meu bebé, serás sempre o meu bebé..." e ela ia desarmando, parando de choramingar progressivamente, rendida no meu colo.
"Mas tem algum mal usar um top?" - perguntava o pai em surdina, confuso no meio de tanto estrogéneo. Não era o top.
Fui capaz de conhecer o choro da minha filha e diferenciá-lo quando parecia apenas guinchos aos ouvidos dos outros: havia o da fome, o do sono, o da fralda suja e o das dores, o mais aflitivo. Aprendi sozinha a conhecê-la. Agora tenho que fazer de novo. Perceber cada emoção, cada gatilho emocional, o que está por detrás de cada explosão, o não querer crescer, o querer continuar a ser pequena. Aprender a reconhecê-la enquanto cresce.
Não era o top. Eu percebi este choro, agora também.
Por isso, tal como quando era pequena, dei-lhe o meu colo, o meu regaço e embalei-a: "és o meu bebé, serás sempre o meu bebé..."
E o coração dela serenou. E com ele o meu, o desta mãe.
Os tops esperam na gaveta.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Ana, a ecológica

 

Estamos, em família, a falar de ecologia e sustentabilidade. O pai para a Ana: "Qual a ação mais ecológica que fazes, Ana?"
Diz a Greta de Alcabideche: "Dahhh! Xixi no duche, claro!"
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Ana, a pragmática

 

Comprámos há mais de um mês a fantasia de Carnaval deste ano: rainha de copas da Alice no País das Maravilhas.
Entretanto, recebemos da escola um e-mail a avisar que o tema deste ano (e dos últimos cinco anos) era os oceanos.
A Ana trata logo do assunto: "Enfio os óculos de mergulho e fica a Rainha de Copas a ver peixinhos no Oceano, que achas?!"
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