segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Amândio, 1930



Todos se calavam na sala, Ana. 

O que era curioso porque éramos muitos e barulhentos naqueles Natais em que não havia saudades. Primeiro o meu pai ainda vivia conosco e depois veio o tempo em que ele, o meu avô, sem dar conta nem se impor, me ensinou a ser amada com uma filha por um pai. 

Chegavam à vez: primeiro a tia Cinda e o tio Chico - e a tia e a minha mãe não entravam na cozinha, a minha avó Ana não deixava, mas traziam tabuleiros infinitos para a mesa: primeiro batatas, depois couves e nabos e no fim o bacalhau- entretanto, o tio Necas e por fim o tio Nato e nos sentávamos enfim, a comer o princípio da roupa velha do dia seguinte, naquele tempo em que eu era neta e sobrinha única e não havia ninguém para amar a seguir. A

 mesa era grande para a sala pequena mas nunca nos sentíamos apertados e o meu avô sentava-se à cabeceira e contava sempre a história que o Sr. Gil Pancadas- seu melhor amigo- tinha ficado muito admirado quando o tinha conhecido recém chegado do Minho e percebera que ele nunca tinha comido Peru pelo Natal e prometeu-lhe dar um Peru todos os Natais até que o primeiro deles morresse e ria-se, invariavelmente, apontando para o Peru de cada ano a marinar no tabuleiro para assar no dia seguinte. 

Mas depois dos doces e antes do meu pai se vestir de Pai Natal ele elevava a voz: “shiu! Pouco barulho que vamos dar início ao espectaculo. Senhoras e senhores os vossos aplausos para a Liana” e eu entrava e cantava, fazia mimica, dançava e declamava poesia e não se ouvia um “ai” na sala sob pena de se enraivecer o velho minhoto. 

Eu era a Estrela daquela noite e ele ficava fascinado a assistir ao meu crescimento, à minha voz a cantar, às minhas pernas a dançar, à minha infância a permitir-me ser feliz sem filtros nem embaraço. E depois todos tinham que bater palmas e abríamos as prendas e se o sono nos permitisse ainda fazíamos uma partida de monopólio, que eu por causa dele, acabava sempre por ganhar. Às vezes deitava-me no meio deles e de manhã ouvíamos cassetes de anedotas e o pelos caminhos de Portugal. 

E havia sempre peru até que o forno se apagou e nunca mais ele mandou calar ninguém na sala, só para me ouvirem cantar..

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