Foi a primeira vez que vi umas escadas rolantes, Ana.
Foi no aeroporto e havia uma distância de um metro que me separava da barreira onde a minha tia ia entrar rumo a Londres, no tempo que a emigração era distante e cara, impossível de suavizar. Eu não me queria despedir. Não havia Ryanair nem Skype nem sequer telemóvel e a minha tia partia por tempo indeterminado e Londres era a Austrália para mim: o outro lado do Mundo. A minha tia fez-se de forte, “vá, dá beijinho à tia. Não chores! Não tarda muito a tia volta!”
Mas eu não parei de chorar, com um nó na garganta que nunca desatou como quando assistia ao “Anjo na Terra” na televisão. E chorei durante todo o caminho de regresso a casa, e chorei em cada chamada telefônica semanal, e chorei sempre que um avião qualquer rasgava as nuvens e me diziam “diz adeus à tia!”, nunca percebi porque me mandavam dizer adeus à minha tia, quando o que eu mais queria era dizer-lhe olá, aninhar-me no seu colo fresco e pedir-lhe que desenhasse bonecas de lábios carnudos e me ensinasse o truque de pintar sempre para o mesmo lado e dentro das linhas e costurasse saias da lambada só para mim.
Durante dois ou três anos os Natais foram incompletos, a minha avó chorava a sua ausência, o telefone tocava e mandávamos beijinhos e disfarçávamos com um tom despachado e alegre para não a entristecer, à minha tia Cinda, e depois ficava um silêncio antes da ceia, o meu avô limpava os olhos com as costas das mãos e eu ainda hoje não gosto de escadas rolantes porque me lembram partidas e natais vividos a aprender à força o que é sentir muito a falta de alguém

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