sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Daniela, 1990



Era meia noite e vinte e três, Ana. 

A avó e o tio Chico ligaram a dizer que a minha prima Daniela tinha nascido. Tinha nove anos e foi a primeira vez que senti um misto de emoções entre euforia pela novidade da primeira bebé na família desde que eu me lembrava de ser gente e o medo de perder a atenção exclusiva de neta e sobrinha única. 

As pessoas diziam-me “agora vais ter que dividir tudo!” e eu não sabia bem como iria ser. Sabia que queria uma menina, na verdade, quando a vi soube que a tinha esperado sempre e era ela que eu queria. E depois, aos dez anos, no primeiro Natal que passamos juntas (e nunca mais passámos nenhum separadas) foi tudo melhor: os mexidos partilhados, da avó partilhada, o colo partilhado, do avô partilhado, as gargalhadas partilhadas, os espetáculos de Natal inicialmente partilhados. 

Depois a distância de uma década colocou-nos em diferentes degraus da vida e eu, já adolescente, tive segunda oportunidade de viver a vida através dela: vivi a magia do Harry Potter com ela, ouvi mil vezes a música do Coyote Bar com ela e depois um dia fiquei crescida e ela passou a fazer sozinha os espetáculos de Natal, mesmo antes de me deixar brincar . eu falsamente contrariada e armada em adulta, como se lhe estivesse a fazer um favor, com as recém desembrulhadas Polly Pockets. 

Agora cada uma tem a sua casa e eu tenho mais saudades dela que nunca e não percebo porque não estamos mais tempo juntas, minha primeira, meu único amor em posição de par, minha primeira caçula, antes até de ti, Ana. E foi com ela, no dia 17 à meia noite e vinte e três, que aprendi que o amor não se divide nem multiplica: partilha-se.

 Neste Natal estaremos ambas no mesmo lado da plateia a assistir ao teu espetáculo de Natal. Porque amar em coro é sempre melhor.

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