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segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Ana, 2012




A minha avó tinha morrido na antevéspera do Natal anterior, Ana. 

Nesse último Natal tínhamos ficado com um presente por abrir debaixo da árvore e (mais) um lugar vago na mesa. A minha mãe ficou órfã e num desgosto profundo que só o anúncio da tua vinda conseguiu atenuar. A tia Cinda também e os tios ficaram perdidos como só Freud conseguiria explicar. 

Era o quinto Natal sem o meu avô e o primeiro sem ela, um Natal esvaziado daquela linha geracional. Eu e a Daniela só agora conseguimos falar deles com aquela saudade boa sem nós na garganta e com recordações divertidas para partilhar. 

Mas aquele Natal de 2012 foi mágico porque tu tinhas chegado sem maneiras, sem bateres à porta dos nossos corações e sem limpares os pés às nossas resistências e medos, chegaste com o encanto de quem chegou para ser adorada, a nossa menina Jesus. E trouxeste o renascer do Natal contigo, as memórias por construir para além das memórias por recordar, uma infinitude de possibilidades e sonhos e vida por viver: a tua e a nossa contigo. 

E enquanto te escrevo este #dezlembro para te lembrar de onde eu venho tu teces uma teia de afectos para cimentares histórias novas em que nós passamos a ser os protagonistas do passado e do presente para um dia te lembrares a ti e aos teus filhos de onde vens tu. 

Vens de um sítio mágico onde o amor é comunitário e família é uma mistura de vidas que se interligam e cruzam e são tão dependentes e ainda assim livres e é tão bom. Vens de um sítio onde os Natais passaram a ter novos rituais: um presépio por cada Natal vivido contigo, agora já à laia de colecção, vidros de janelas pintados com canetas de giz e uma estrela com o nome de cada um de nós na árvore de Natal e o tio Hugo a fazer todos os anos de Pai Natal e o Kubrick a correr com a cauda a dar a dar, e espectáculos de Natal com cenografia da tua autoria e músicas de Natal na televisão e a minha mãe e tu a distribuírem presentes. E calor. 

O passado tem que se preservar mas és tu a nossa estrela guia que nos garante a luz para o futuro, o caminho do amor que continuará. Que se perpetua. 

Obrigada por nos devolveres o Natal, querida Ana. A estrela no topo e no firmamento serás sempre tu.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Necas, 1955



O primeiro Natal em que me lembro dele teria uns onze anos, Ana. 

Tinha emigrado tinha eu cinco e a sua memória era distante, do tempo em que eu tinha uma prima da minha idade que brincava comigo no pátio da minha avó. Depois eles separaram-se e eu via a minha prima de vez em quando, nos anos e no Natal até que a vida nos separou de vez e ela não seja agora sequer uma estrela nesta árvore. 

Até lá ele era o tio emigrado e que não voltara, o tio que visitava a Europa que nós nem sonhávamos que existia, que aprendia receitas e comidas estranhas, mandava postais de outras capitais, o tio que corria o Mundo. 

Um dia ele voltou casado com a Maria, a minha nova tia polaca de 23 anos com quem aprendi que curva era um palavrão em polaco e que me fazia máscaras de pele com batata cozida para me acalmar o acne. E trouxe receitas de spaggetti carbonara, lasanha e sanduíches estranhas, o meu tio que dizia “saaandwwwwishhh” em vez de sandes e que as dispunha em travessas enfeitadas com flores feitas com casca de tomate. 

O tio porreiro que foi a primeira pessoa da família a conhecer o teu pai, o tio porreiro que traz sempre aventuras para contar, que pintou as paredes de todas as casas em que vivi e que nunca me diz não a nada. O tio trapalhão e bonacheirão que deixou de beber e fumar depois de um ataque cardíaco e que traz agora uma enésima tia cabo-verdiana para a família, porque sempre foi ele, o tio Necas, que trouxe o Mundo e os ingredientes mais exóticos e divertidos para esta família.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Nato, 1958



E veio um Natal e ele nunca mais chegou, Ana. 

Bem sei que não é um começo de história bonito mas alguém tem que te explicar que aquilo do “e viveram felizes para sempre” pode não ser bem assim. O tio Nato viveu anestesiado, bem ao estilo Shakespeariano, trocando o desgosto amoroso pelo prazer do álcool. Primeiro o prazer, depois o vício, no fim a doença. Para nós sempre a inevitabilidade. Eu pedia sempre ao menino Jesus que ele chegasse sóbrio e bem disposto, talvez por isso sempre preferisse o pai Natal, esse ao menos nunca me defraudava. 

O Natal só começava quando nos sentávamos todos na mesa e isso só acontecia quando ele chegava, mesmo que ele demorasse a chegar e nós não conseguíssemos prever se teríamos a bebida também sentada à nossa mesa ou se ele viria sóbrio. Ninguém se sentava enquanto não estivéssemos todos e ele era, inevitavelmente, o último a chegar. A minha avó atrasava a panela das batatas, lembrava-se que as couves afinal não chegavam e engonhava a ir pedir umas emprestadas à vizinha ou às vezes deixava-as cozer demais propositadamente, para ter que deitar as couves moles fora e meter uma segunda panela ao lume, só para ganhar tempo e permitir que ele chegasse. 

Às vezes, nas noites em que tardava mais, ia despejar o balde do lixo lá fora ao contentor e ia uma segunda ou terceira vez, mesmo que o balde já estivesse vazio e não houvesse nada para despejar, na esperança de o avistar ao fundo da rua. 

Às vezes ele não vinha sozinho e comia em silêncio e ia deitar a tristeza embrulhada em álcool ainda antes dos mexidos e da aletria pousarem na mesa. Outras vinha sóbrio e era o mais entusiasta a aplaudir os meus espetáculos e os da Daniela e no fim da noite era o único que tinha pachorra para jogar connosco monopólio ou batalha naval ou dominó com o meu avô Amândio. 

Os nossos Natais não foram cem por cento felizes por causa dele mas era quando ele chegava e se sentava que começava o nosso Natal e foi com ele que aprendi que o amor de mãe manda no tempo e no acontecimento dos dias, sempre que a minha avó deixava queimar as couves só para lhe dar tempo para ele chegar.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Daniela, 1990



Era meia noite e vinte e três, Ana. 

A avó e o tio Chico ligaram a dizer que a minha prima Daniela tinha nascido. Tinha nove anos e foi a primeira vez que senti um misto de emoções entre euforia pela novidade da primeira bebé na família desde que eu me lembrava de ser gente e o medo de perder a atenção exclusiva de neta e sobrinha única. 

As pessoas diziam-me “agora vais ter que dividir tudo!” e eu não sabia bem como iria ser. Sabia que queria uma menina, na verdade, quando a vi soube que a tinha esperado sempre e era ela que eu queria. E depois, aos dez anos, no primeiro Natal que passamos juntas (e nunca mais passámos nenhum separadas) foi tudo melhor: os mexidos partilhados, da avó partilhada, o colo partilhado, do avô partilhado, as gargalhadas partilhadas, os espetáculos de Natal inicialmente partilhados. 

Depois a distância de uma década colocou-nos em diferentes degraus da vida e eu, já adolescente, tive segunda oportunidade de viver a vida através dela: vivi a magia do Harry Potter com ela, ouvi mil vezes a música do Coyote Bar com ela e depois um dia fiquei crescida e ela passou a fazer sozinha os espetáculos de Natal, mesmo antes de me deixar brincar . eu falsamente contrariada e armada em adulta, como se lhe estivesse a fazer um favor, com as recém desembrulhadas Polly Pockets. 

Agora cada uma tem a sua casa e eu tenho mais saudades dela que nunca e não percebo porque não estamos mais tempo juntas, minha primeira, meu único amor em posição de par, minha primeira caçula, antes até de ti, Ana. E foi com ela, no dia 17 à meia noite e vinte e três, que aprendi que o amor não se divide nem multiplica: partilha-se.

 Neste Natal estaremos ambas no mesmo lado da plateia a assistir ao teu espetáculo de Natal. Porque amar em coro é sempre melhor.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Cinda, 1962



Foi a primeira vez que vi umas escadas rolantes, Ana. 

Foi no aeroporto e havia uma distância de um metro que me separava da barreira onde a minha tia ia entrar rumo a Londres, no tempo que a emigração era distante e cara, impossível de suavizar. Eu não me queria despedir. Não havia Ryanair nem Skype nem sequer telemóvel e a minha tia partia por tempo indeterminado e Londres era a Austrália para mim: o outro lado do Mundo. A minha tia fez-se de forte, “vá, dá beijinho à tia. Não chores! Não tarda muito a tia volta!” 

Mas eu não parei de chorar, com um nó na garganta que nunca desatou como quando assistia ao “Anjo na Terra” na televisão. E chorei durante todo o caminho de regresso a casa, e chorei em cada chamada telefônica semanal, e chorei sempre que um avião qualquer rasgava as nuvens e me diziam “diz adeus à tia!”, nunca percebi porque me mandavam dizer adeus à minha tia, quando o que eu mais queria era dizer-lhe olá, aninhar-me no seu colo fresco e pedir-lhe que desenhasse bonecas de lábios carnudos e me ensinasse o truque de pintar sempre para o mesmo lado e dentro das linhas e costurasse saias da lambada só para mim.

 Durante dois ou três anos os Natais foram incompletos, a minha avó chorava a sua ausência, o telefone tocava e mandávamos beijinhos e disfarçávamos com um tom despachado e alegre para não a entristecer, à minha tia Cinda, e depois ficava um silêncio antes da ceia, o meu avô limpava os olhos com as costas das mãos e eu ainda hoje não gosto de escadas rolantes porque me lembram partidas e natais vividos a aprender à força o que é sentir muito a falta de alguém

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Amândio, 1930



Todos se calavam na sala, Ana. 

O que era curioso porque éramos muitos e barulhentos naqueles Natais em que não havia saudades. Primeiro o meu pai ainda vivia conosco e depois veio o tempo em que ele, o meu avô, sem dar conta nem se impor, me ensinou a ser amada com uma filha por um pai. 

Chegavam à vez: primeiro a tia Cinda e o tio Chico - e a tia e a minha mãe não entravam na cozinha, a minha avó Ana não deixava, mas traziam tabuleiros infinitos para a mesa: primeiro batatas, depois couves e nabos e no fim o bacalhau- entretanto, o tio Necas e por fim o tio Nato e nos sentávamos enfim, a comer o princípio da roupa velha do dia seguinte, naquele tempo em que eu era neta e sobrinha única e não havia ninguém para amar a seguir. A

 mesa era grande para a sala pequena mas nunca nos sentíamos apertados e o meu avô sentava-se à cabeceira e contava sempre a história que o Sr. Gil Pancadas- seu melhor amigo- tinha ficado muito admirado quando o tinha conhecido recém chegado do Minho e percebera que ele nunca tinha comido Peru pelo Natal e prometeu-lhe dar um Peru todos os Natais até que o primeiro deles morresse e ria-se, invariavelmente, apontando para o Peru de cada ano a marinar no tabuleiro para assar no dia seguinte. 

Mas depois dos doces e antes do meu pai se vestir de Pai Natal ele elevava a voz: “shiu! Pouco barulho que vamos dar início ao espectaculo. Senhoras e senhores os vossos aplausos para a Liana” e eu entrava e cantava, fazia mimica, dançava e declamava poesia e não se ouvia um “ai” na sala sob pena de se enraivecer o velho minhoto. 

Eu era a Estrela daquela noite e ele ficava fascinado a assistir ao meu crescimento, à minha voz a cantar, às minhas pernas a dançar, à minha infância a permitir-me ser feliz sem filtros nem embaraço. E depois todos tinham que bater palmas e abríamos as prendas e se o sono nos permitisse ainda fazíamos uma partida de monopólio, que eu por causa dele, acabava sempre por ganhar. Às vezes deitava-me no meio deles e de manhã ouvíamos cassetes de anedotas e o pelos caminhos de Portugal. 

E havia sempre peru até que o forno se apagou e nunca mais ele mandou calar ninguém na sala, só para me ouvirem cantar..

sábado, 1 de dezembro de 2018

Ana, 1929



Sabes, Ana, o Natal é a minha avó, matriarca desta família e sua memória mais ancestral. Raiz mais profunda da nossa história, tua também.


Nas vésperas começávamos a guardar o pão duro para os mexidos e a minha avó Ana ia à mercearia do João Aires, primo direito, e aviava as compras de frutos secos e pinhões, numa altura em que as pinhas do pinhal ao pé da igreja já não davam pinhões e, talvez por isso, reclamasse sempre do seu preço. Num alguidar punha a massa das filhós a repousar e cheirava sempre a canela na nossa casa e ao desejo gustativo dos doces minhotos que continuam a alegrar a nossa mesa, como um vira que vira e torna a virar ou canções de acordeão à desgarrada. 


Na véspera da véspera de Natal o avô Amândio esfarelava o pão bem miudinho, que os mexidos só sabem bem com pão miudinho e a avó Ana metia-o na panela maior e mexia bem tudo lá dentro até sair um doce castanho-canela que distribuía em pratos e tigelas e taças, todas as que tínhamos em casa. Na manhã da véspera de Natal era a vez das filhós que tinham ficado a descansar e com uma mestria de samurai ou de mulher do Norte- é parecido- agarrava-as numa colher e fritava-as. Chamava-me sempre: “Liaaaana!”, no tempo em que eu era Liana para toda a gente lá em casa, e apontava-me filhós a filhós a ganhar forma na frigideira: “esta parece um dragão, esta uma árvore, esta um gato”. 

Era assim a minha avó que em vez de descortinar imagens de sonho nas nuvens do céu, as fazia a olhar massa de filhós na frigideira da cozinha pequenina e apertada. Eu tinha sempre a tarefa mais importante: passar as filhós por açúcar e canela e fazer carreirinhos de canela em cima dos mexidos e da aletria. 

No dia de Natal era a comida mais desejada: as filhós-nuvens e os mexidos com estradas de canela em cima, caminhos para o céu. Sabes, Ana, este ano quando comeres mexidos, aqueles que não ficarão iguais aos da minha avó Ana porque não foram esfarelados pelo avó Amândio, perceberás porque, tantos anos depois, o nosso Natal continuará a ser para sempre a minha avó Ana.

domingo, 25 de novembro de 2018

Dez(l)embro



Este ano decidi comprar enfeites de árvore definitivos. 

Parece-me que aos 38 anos, a pagar uma hipoteca, sedentária assumida, casada há doze anos (e juntos há vinte), no mesmo emprego há cinco anos seguidos, já estou numa altura em que posso pensar em criar tradições definitivas, objetos para permanecerem. 

Este ano, na nossa árvore de Natal teremos uma estrela por cada membro da família (os meus avós e tio também lá estarão) a lembrar-nos, Natal após Natal, quem somos: passado, presente e futuro. Inteiros. Unos. Família.

E não é disto que se trata o Natal?!



 [obrigada @zitamina pela concretização desta ideia tão de amor]

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Ana, 1960



Ana como tu, Ana. 

Um dia vais estar careca de ouvir esta história do teu nome que é o nome da minha avó que morreu quando tu decidiste vir morar para a minha barriga e da minha mãe que é a pessoa que mais amo no Mundo e saberás a importância de te chamares Ana, como todas as mulheres da minha vida, tu também. 

A minha mãe é simultaneamente a pessoa mais complexa e simples que conheço: complexa porque é inconformada, subversiva, incorrompível, desobediente, teimosa e nada agradadora, de ideias fixas e firmes, a mulher mais inteligente e justa que conheço, a melhor qualidade que podes vir a herdar dela para além da honestidade, integridade e o nome acabado em “ade” é o sentido rigoroso de justiça e isso é uma coisa bela e rara. 

Dizia-te eu, Ana, que é, simultaneamente, a pessoa mais simples que conheço porque sei-a de cor do ponto de vista de quem já morou nela, conheço-lhe as janelas dos sorrisos, a porta da vida, sei tudo o que ela não lhe apetece contar-me porque os olhos dela ditam palavras para o meu coração e cada silêncio dela é uma narrativa cheia de sentido para mim. 

Um dia nós as duas ficámos sozinhas no Natal e isso, tendo mudado tudo, não tornou nada diferente: sempre fomos as duas sozinhas numa placenta de amor vitalício que nada tem o condão de romper e nesse Natal, de há precisamente 30 anos, chorámos agarradas a ausência do meu pai, lembro-me do abraço apertado e das lágrimas dela a misturarem-se com as minhas e lembro-me que me agachei no seu colo e respirei fundo e tranquilizei-me: éramos só nós as duas e nada ficava, afinal, diferente. 

Nunca mais deixámos de ser só nós as duas porque o Natal é mãe, casa, é colo, é amor umbilical. Agora somos três, matrioskas, unas e é melhor e tu vieste para mostrar porque é o três o número da perfeição. Mas o meu Natal, aninhada, frágil e criança, crente na magia do Pai Natal e eufórica, esse Natal que me pertence será sempre ela.



O meu Natal é a minha mãe.
A minha mãe Ana, a realmente Maior.
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