quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Necas, 1955



O primeiro Natal em que me lembro dele teria uns onze anos, Ana. 

Tinha emigrado tinha eu cinco e a sua memória era distante, do tempo em que eu tinha uma prima da minha idade que brincava comigo no pátio da minha avó. Depois eles separaram-se e eu via a minha prima de vez em quando, nos anos e no Natal até que a vida nos separou de vez e ela não seja agora sequer uma estrela nesta árvore. 

Até lá ele era o tio emigrado e que não voltara, o tio que visitava a Europa que nós nem sonhávamos que existia, que aprendia receitas e comidas estranhas, mandava postais de outras capitais, o tio que corria o Mundo. 

Um dia ele voltou casado com a Maria, a minha nova tia polaca de 23 anos com quem aprendi que curva era um palavrão em polaco e que me fazia máscaras de pele com batata cozida para me acalmar o acne. E trouxe receitas de spaggetti carbonara, lasanha e sanduíches estranhas, o meu tio que dizia “saaandwwwwishhh” em vez de sandes e que as dispunha em travessas enfeitadas com flores feitas com casca de tomate. 

O tio porreiro que foi a primeira pessoa da família a conhecer o teu pai, o tio porreiro que traz sempre aventuras para contar, que pintou as paredes de todas as casas em que vivi e que nunca me diz não a nada. O tio trapalhão e bonacheirão que deixou de beber e fumar depois de um ataque cardíaco e que traz agora uma enésima tia cabo-verdiana para a família, porque sempre foi ele, o tio Necas, que trouxe o Mundo e os ingredientes mais exóticos e divertidos para esta família.

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