A vida não me corre mal.
Tenho todos os meus amores resolvidos, até o mais antigo, o que de não ser amor se tornou amor. Este ano não me telefonará no aniversário, como não o faz há seis anos seguidos, e já não faz mal porque de não querer resolver uma história, quiçá à força de a perpetuar, de ficar para sempre no ar tudo o que poderíamos ter sido, constatamos que não fomos nada e matou-nos porque as histórias que não se resolvem, assim ficam resolvidas.
Não devo desculpas a ninguém. Estou de bem com o Mundo e mesmo que o Mundo não esteja inteiramente de bem comigo, o problemas não sou eu, são vocês. Durmo, todos os dias, de consciência tranquila, em paz e não há preço que pague isso.
Tenho os livros que gosto de ler nas estantes. Tenho mais que uma estante, é verdade, todas cheias de livros. Tenho livros de sempre, livros que cheiram a passado, ao meu passado, livros rabiscados, rasurados, sublinhados, imaculados e venerados. Livros autografados, livros cujas histórias fizeram a minha história, livros cuja a minha história na altura em que os li pela primeira vez os transformaram noutra história.
Não tenho interrogações existenciais, não tenho suspeitas ou dúvidas, não tenho questões de fundo por resolver. Rodeio-me das pessoas que me fazem bem e quando não mo fazem afasto-as ou afasto-me, sem grandes intelectualizações, sem raivas nem revoltas, sem zangas ou agitações, só porque sim, porque tem que ser, porque quero viver tranquila.
Tenho os amigos que me escolheram e que escolhi. Muitas vezes perto, outras mais longe, umas mais presentes e outras, por força da vida, mais distantes mas sei que isto é como um iô-iô e a única coisa que posso fazer é não largar o fio do brinquedo. Amigos novos, frescos e cheios de coisas por descobrir, amigos antigos cheios de vida vivida no plural comigo, histórias partilhadas, gente que entra e fica, instalando-se aqui, em mim, como se eu tivesse um puff dentro do meu coração.
Tenho gavetas e discos externos cheios de fotografias de memórias de viagens e máscaras na parede do corredor, que trouxe de muitos sítios e que me trouxeram para casa muitos dos sítios onde os meus amigos as compararam. Tenho aventuras para contar, histórias para partilhar em mesas de almoços de sardinhas com pimentos assados e sangria fresquinha.
Tenho uma família que se mantém família, presente nos dias melhores e nos piores, que pica ponto nos meus dias sem obrigação, só porque ama. E quem ama quer ficar perto.
Tenho a minha mãe que transformei numa avó inanarrável. tenho uma mãe com duplo papel, tão meiga, tão resmungona, tão sensível e mau feitio, tão minha mãe, tão avó da Ana, tão completa, afinal.
Tenho uma filha que dorme, neste momento, numa cama de princesa com dossel. Que sabe observar, que se ri de forma seleccionada, que tem um olhar que perscruta, umas mãos pequeninas mas que seguram todo o meu Mundo. Tenho uma filha saudável, bonita e bem humorada e isso é meio caminho andado para ela poder vir a ser o que ela quiser. Feliz, quero-o eu.
Tenho um marido que me escolheu, que se deixou ser escolhido, que viveu comigo tempos difíceis, tempos bravos e que agora, vê finalmente florir uma relação, cuja semente custou a pegar, uma planta que não se decidia se precisava mais de água ou de sol, que demorou a crescer rente à estaca, direitinha e viçosa, mas que agora, vê florir a flor mais fresca e especial, o plural a três que somos nós.
Tenho os meus mortos enterrados na terra mas vivos, dia após dia, nos meus passos, no meu sangue e na minha história. Reconciliei-me com a raiva da morte e transformei-a numa saudade que se pronuncia em voz baixinha, para não se cutucar.
Tenho o céu luminoso de Cascais. E tenho o mar. Porque o mar é já ali,
Acho que é isto o final feliz, esperando que não esteja para breve o final, mas querendo que continue esta tranquilidade morna e doce, tépida e adocicada. Esta "ram-ram" bom e demorado. Esta vida em velocidade de cruzeiro.
Não fosse a necessidade de domar de vez o meu cabelo, encontrar um novo emprego que me faça feliz, comprar uma máquina fotográfica nova e andar de balão e arriscaria a dizer que a vida, até, não me corre nada, mas mesmo nada mal.