segunda-feira, 4 de abril de 2022

O melhor da pandemia


Começo eu: não ter que enfrentar a perda de tempo imposta pelo trânsito.


O pior da pandemia


Começo eu: os diretos de vendas no facebook.
Agora vocês.

Esta loucura boa de ser mãe

 

Chegamos- atrasadas- ao portão da escola.
Ana sai do carro a equilibrar a lancheira, muito despachada, bate com a porta do carro e toca à campainha do portão para que lho abram.
Naquele compasso de espera, em que o nosso carro não arranca porque ela ainda não entrou, grito-lhe da janela do carro: "És liiinda!"
Ela vira-se para mim, pisca o olho, e atira um "Foste tu que fizeste, sua maluca!"
...

domingo, 3 de abril de 2022

O Mundo divide-se...


... entre as pessoas que têm, pelo menos, um sobrenome que é o nome de uma terra e as outras.

Ah, assim faz sentido!

 

Acordei às 08h. Adormeci a seguir ao almoço e estive a fazer uma sesta no sofá até agora.
Passei, portanto, a ser uma pessoa que dorme em suaves prestações....

FML.

La decadence

 

É domingo, a Ana está a passar o fim-de-semana na tia e eu acordo às 08h da manhã. Sem despertador.
A seguir o quê?

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Suspiro*


Apresento-vos a Alícia Sierra de Alcabideche...




Uma hora de nerf cá em casa

 

Este ano substituo a tradicional caça ao ovo na Páscoa pela caça às balas, caraças!

Pronto, a miúda ganhou uma Nerf*

 

"Sou a Alicia Sierra de Alcabideche, mamã"
...


[* Para quem, como eu até há horas não sabe o que é: uma pistola tipo paintball com balas de borracha...]


[** Leitoras fofinhas que trabalham na CPCJ: ups, foi sem querer que a deixámos ver a Casa de Papel...]

Como saber que uma criança é filha de um casal de psicólogos?

 

Ana chega da escola super querida comigo, toda ela mimos e festinhas e risinhos e tudo, e o pai fica atónito e ofendido a olhar para ela armado em Calimero.
Resposta da bicha :
"Ai pai: tem paciência que eu hoje estou com a Electra avariada..."
Freud ficaria orgulhoso, caraças!

quinta-feira, 31 de março de 2022

Hospital de Santa Maria

  


Para se ser um bom profissional são precisas muitas coisas: formação, experiência, dedicação, interesse, motivação, disciplina, competência, brio, capacidade de entrega, inspiração. Acredito que para todas as profissões mas em particular para os médicos.

Não se trata de ser a profissão mais nobre, que isto não é uma competição de ego e estatuto mas, especialmente, de ser a profissão que segura as vidas de todos nós, com cuidado, nas mãos.

Conheci dezenas de médicos ao longo da minha vida: sou uma paciente com doutoramento. Talvez por isso, na óptica muito experiente do utilizador, consiga perceber o que faz de um bom médico um médico excepcional. Seja em que especialidade for.

Quando entrei pelas urgências do Santa Maria com a minha mãe tive o pior dia da minha vida. Para além das notícias e do prognóstico difícil , sair dum hospital distrital como acabávamos de sair (onde conhecemos os cantos à casa e profissionais lá dentro) para um central, gigante e labirinto, assusta e desorienta.

Foi esta médica que me acolheu. À minha mãe mas especialmente a mim, em pânico e desvairada, cheia de medo e de tristeza e me deu tempo para falar, para perguntar, me esclareceu todas as dúvidas, me apazigoou, me permitiu acompanhar a minha mãe, não fez nenhum juízo de valor, nunca deixou de encontrar um espaço para vir falar comigo e me orientar. E percebi que é isto e só isto que faz um médico excepcional: o serviço às pessoas, a sensibilidade, a atenção e, sobretudo, a humanidade.

Diz-se que quem nossos filhos beija, nossa boca adoça. Eu acrescento que quem nossas mães trata com respeito e humanidade, aos nossos corações dá colo.

Chama-se Mariana Caetano, é médica otorrinolaringologista do Hospital de Santa Maria e, por mais vidas que viva, nunca lhe conseguirei agradecer.

Talvez este texto nunca lhe chegue às mãos mas fica aqui para que todos decorem o seu nome: Mariana Caetano. Mariana Caetano: médica mas, sobretudo, pessoa.

Obrigada pelo amor. É sempre de amor ao outro que se trata.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Melodia de só desgostos em estrogénio maior*

 

"Estou assim, mãe, asssim- e junta o indicador com o polegar- de me tornar uma fashionista. Vais ter que lidar com o desgosto. Estas meias são mesmo wow, não picam nada. Estou mortinha por usar saltos altos e batom encarnado e vestidos de lantejoulas e glitering. Quando for adulta vou para todo o lado de lantejoulas, vais ver. E vou continuar a ter um Instagram de costas mas com todas as minhas roupas. A tua amiga diz que eu tenho as costas mais famosas da internet. Imagina quando nas minhas costas forem só lantejoulas, imaginas? Lantejoulas douradas sempre. Vou parecer um globo de ouro igual aqueles da SIC... "

Ana, 9 anos e picos


(* Foi karma lançado pela minha amiga Mónica Lice )

terça-feira, 29 de março de 2022

Só para nascidos nos anos 80

 


Tenho a rencarnação da viúva Porcina em casa...






FML

Ah, o sabor da pré-adolescência pela manhã

 

"Mãe, vamos ter que ter esta conversa: podes parar de me comprar collants de lã que eu gosto mesmo é daqueles de mousse macia na pele?"
...

domingo, 27 de março de 2022

Se calhar tenho que a inscrever numa arte marcial

 

A Ana quis ajudar-me a amaciar uns bifes de alcatra com o martelo da carne.

O almoço vai ser bolonhesa...

sábado, 19 de março de 2022

Como vive uma criança sem pai?

 

Como vive uma criança sem pai? Pergunto-me muitas vezes, olhando para os outros que conheço sem pai, mas olhando especialmente para dentro.
Eu tinha um pai. Era divertido, presente, falador e extrovertido, brincalhão mas, acima de tudo, era o meu. Um dia ele foi embora e eu fiquei com um espaço vazio para sempre.
Cresce-se sem pai. Sobrevive-se sem pai. Aprende-se sem pai. Até se pode ser feliz sem pai. Estou aqui a comprová-lo.
Mas cresce-se a pensar que não se é importante o suficiente para o pai ter escolhido ficar. Sobrevive-se a pensar que um dia talvez se consiga compreender o porquê, se consiga explicar como aconteceu, entender razões, não ser culpa nossa que os adultos confundissem conjugalidade com parentalidade, atirar as culpas para quem escolheu não nos escolher; sobrevive-se a tentar preencher esse espaço vazio com outras figuras de referência, a mãe que também é pai mas que nunca consegue ser, coitada, é um puzzle e o formato dela não encaixa naquele buraco, o avô que até é homem mas que nunca consegue ser pai por ternura a mais, gap geracional, os avôs nunca conseguem ser os mais fortes. E aprende-se que esse espaço vazio nunca se preenche porque é uma amputação no crescimento e tudo o resto são próteses para a alma, e a alma aprende a andar mas o campeonato é outro, não é a mesma velocidade, a mesma estrutura emocional, não é a mesma certeza de amor inabalável. Não se cura. Não se preenche. Não se substitui.
Aprende-se a ser feliz sem pai. Estou aqui a comprová-lo. Sou uma pessoa feliz, contente com quem é e com o modo como a vida vai correndo.
Quando os vejo - Rui e Ana- percebo o bom que deve ser esse amor que vocês falam, os posts com as fotografias dos vossos pais no dia do Pai, essa estrutura firme e rochosa do amor entre pais e filhos (ah, e filhas ..) e fico com pena.
Não apenas de não viver isso igual mas com muita pena do meu pai ter escolhido que não queria viver isso comigo. Não foi só ele que perdeu. Fomos os dois.
Mas eu ganhei a minha mãe que também foi pai, o meu avô, os meus tios. E agora o Rui. Foram todos eles que me ensinaram a ser feliz, querida, amada, importada e importante mesmo sem pai. O amor regenera.
Obrigada.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Não há forma certa de lidar com a guerra, porque fomos feitos de paz

Primeiro não conseguia dormir, remexia-me na cama, levantava-me, ia à cozinha beber água, via notícias no telemóvel, ia ao Twitter, ia ao quarto da Ana olhar para ela, imaginava se fossemos nós, abandonar tudo de material, no limite só nós temos uns aos outros, tudo o resto é matéria, mas a matéria dá conforto, calor, dá afecto, somos feitos de amor, por isso não sabemos lidar com a Guerra, porque fomos feitos para a Paz.

Doia-me a cabeça, as notícias na televisão sempre ligada, as actualizações pop up no telemóvel, as crianças nas imagens, a Ana em cada uma delas, é sempre sobre nós, nós nos outros, a empatia é sempre egoísta, o trabalho mais pesado, eu mais lenta, a cabeça a doer.

Decidi abrandar os estímulos, ver só televisão o fim do dia, desligar as actualizações do telemóvel, estaria a ser covarde? Estaria a fazer evitamento? A entrar em negação?

A guerra existia para além do que eu decidia, do que eu controlava- o que posso fazer para acrescentar sem me doer a cabeça, sem querer que a guerra me dê cabo da saúde mental?
Experimento diferentes estratégias, tento encontrar uma forma de lidar com isto, ponho mãos à obra, percebo como sempre que não consigo mudar o Mundo mas consigo ajudar devagarinho, uma pessoa de cada vez, coisas práticas, não preciso de fazer nada grandioso, pequenas coisas, pequenas ajudas, uma de cada vez, fazer o dia a dia de algumas pessoas avançar, já não me dói a cabeça, não vale de nada- bem sei...- a Guerra não acaba mas ao menos não me mato por dentro, isso não salva ninguém mas salva-me a mim, nos aviões ensinam-nos sempre que antes de metermos uma máscara de oxigénio às crianças que estão ao nosso lado temos que as metermos primeiro a nós.

Não há forma certa de lidar com a Guerra porque fomos feitos para a paz.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Ana, a pré-adolescente

 

Comprei-lhe tops. O corpo está a mudar e quero proporcionar-lhe conforto e suporte, quero fazer tudo certo, agora que eu já estava veterana em ser mãe de uma criança, tenho que aprender de novo a ser mãe. Duma pré -adolescente.
Sinto-me insegura mas quero tentar fazer tudo certo como quando comprei os biberões mais anatómicos, a cadeirinha do carro mais segura. Mas não há lojas @babyblue_pt para mães de pré -adolescentes, não há cursos de preparação para a adolescência, não há livros que nos guiem e eu só quero tentar fazer tudo certo.
Comprei-lhe tops e isso foi um gatilho de irritabilidade: começou a escalar, a embirrar com coisas triviais, a chorar, estava confusa e zangada e não sabia explicar o que sentia nem porque se sentia assim. Eu abracei-a: "foi por causa dos tops, Ana? Não tens que os vestir já, ficam só ali na gaveta para um dia que te apeteça vestir, quando te apetecer, sem pressão, pode ser no tempo que quiseres". Ela choramingava sem motivo aparente. Abracei-a com mais força: "És o meu bebé, serás sempre o meu bebé..." e ela ia desarmando, parando de choramingar progressivamente, rendida no meu colo.
"Mas tem algum mal usar um top?" - perguntava o pai em surdina, confuso no meio de tanto estrogéneo. Não era o top.
Fui capaz de conhecer o choro da minha filha e diferenciá-lo quando parecia apenas guinchos aos ouvidos dos outros: havia o da fome, o do sono, o da fralda suja e o das dores, o mais aflitivo. Aprendi sozinha a conhecê-la. Agora tenho que fazer de novo. Perceber cada emoção, cada gatilho emocional, o que está por detrás de cada explosão, o não querer crescer, o querer continuar a ser pequena. Aprender a reconhecê-la enquanto cresce.
Não era o top. Eu percebi este choro, agora também.
Por isso, tal como quando era pequena, dei-lhe o meu colo, o meu regaço e embalei-a: "és o meu bebé, serás sempre o meu bebé..."
E o coração dela serenou. E com ele o meu, o desta mãe.
Os tops esperam na gaveta.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Ana, a ecológica

 

Estamos, em família, a falar de ecologia e sustentabilidade. O pai para a Ana: "Qual a ação mais ecológica que fazes, Ana?"
Diz a Greta de Alcabideche: "Dahhh! Xixi no duche, claro!"
...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Ana, a pragmática

 

Comprámos há mais de um mês a fantasia de Carnaval deste ano: rainha de copas da Alice no País das Maravilhas.
Entretanto, recebemos da escola um e-mail a avisar que o tema deste ano (e dos últimos cinco anos) era os oceanos.
A Ana trata logo do assunto: "Enfio os óculos de mergulho e fica a Rainha de Copas a ver peixinhos no Oceano, que achas?!"
...

Só para quem vê Netflix

 

"Mãe, há alguma hipótese de amanhã me mascarar de Anna Delvey?"

...

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Ah, o maravilhoso mundo dos trabalhos manuais que a escola manda para casa

 

O desta semana era o de concebermos uma cadeira dos afetos.
A Joana Vasconcelos terá sucessora e ... eis a nossa!







Mandem vir a Floribela para compor, pode ser?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Ana, a esfalecer


Ana liga-me enquanto estou a caminho de casa, na auto-estrada:
-"Ai mãe, demoras muito?! Estou a sentir-me mal, com fome. Estou a "ESFALECER".
Eu (preocupada): "Pede à avó que te dê de alguma coisa de petisco, só para aconchegar..."
Ana: "Calculei que ias dizer isso. Então é ok que tenhamos mandado vir pizzas, não é?"

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Fui eu que fiz esta miúda

 

A Ana fez a sua própria banda desenhada em que a Mona Pizza farta de estar sempre a sorrir e o Frito farto de estar sempre a gritar fazem uma manif e decidem mudar de expressão.






Não sei lidar ❤️

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Croma dourada

 


A Ana foi para a cozinha fazer o seu bolo de cenoura.
Quarenta minutos depois apresentou-nos a sua obra prima (DON'T ask!) com uma proposta:
"Bora cantar os
parabéns
ao covid?!"
Nós: "Credo! Que bolo é esse? "
Ana: "É para o covid!"
Eu: "Que forma usaste? Isso está uma desgraça..."
Ana: "Qual é a parte do "é para o covid" que não percebeste?!
...
Eu mereço?!

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Está oficialmente para adopção


Ana anda entusiasmada com as histórias do Asterix, influenciada pelo pai.
Ana para o pai: "Eu sou o Astérix, que sou muito esperta. Tu és o Obelix, porque és divertido e gorducho"
Eu (armada em confiançuda a pensar que ela iria responder que eu seria a Falbala): "E eu, Ana, sou quem?"
Ana (num impulso): "És o peixeiro..."
...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Causa Própria

Se não viram, ainda vão a tempo.
Uma série incrível, com uma direcção de fotografia soberba e interpretações geniais. Na televisão pública, que está melhor que nunca.

Passando a critica intelectual, a verdade é que tem o Nuno Lopes e lalalala. #fazia 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Era o "Absolutamente Fabulosas" e a CPCJ deve estar a bater-me à porta



Ana: "Hoje no intervalo eu, o Duarte, a Leonor e a Ana Lúcia brincámos ao "Esplendidamente Perfeitas"
Eu: "Ao quê?"
Ana: "Ao "Esplendidamente Perfeitas". Eu era a Edwina, claro .."
...
(Não sei como vou encarar os pais destes colegas da Ana na próxima reunião na escola...)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

"Sonhos que sonhei: onde estão?" Aqui.

Em Agosto quando fomos à Eurodisney a Ana atirou uma moeda para o poço de desejos na caverna dos piratas. Eu ouvi ela a desejar baixinho, de olhos fechados, enquanto a atirava: quero voltar aqui com toda a minha família.


A minha mãe e a minha tia fazem tudo pela Ana desde o dia em que ela nasceu. Apanham-na na escola, levam-na a lanchar, ficam com ela até regressarmos de Lisboa e chegamos sempre antes de jantar, às vezes dao-lhe elas o jantar e adiantam o banho, vão às compras com ela, a passear, a fazer aventuras na natureza (aqui é a minha mãe!), Se ficamos até tarde em projetos pós laborais, reuniões, formações, lá estão elas sempre a dar suporte. E isto tudo sem nunca se queixarem, felizes por estarem com a Ana, gratas por a poderem acompanhar. E nas férias ainda ma raptam para praia, campismo, piscina e dão-lhe os melhores Verões da infância.


Partilham o dia-a-dia, todos os dias, desde há dez anos, com a Ana. Era normal que a Ana quisesse retribuir. Porque se trata de gratidão, este desejo da Ana.


Há seis meses que fazemos mealheiro: a Ana guardou todas as notas e moedas do Pão por Deus, do Natal, da venda dos seus macramés aos amigos e vizinhos, da venda no OLX de livros, brinquedos e roupa usados, eu das formações que dei fora de horas, o Rui das aguarelas que tem pintado timidamente.


Neste fim-de-semana o sonho da Ana tornou-se magicamente real.


A lâmpada do Aladino funciona mesmo. Fomos mesmo, mesmo felizes.

Para registo

4 semanas é o tempo que uma sobrancelha demora a crescer.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

A minha mãe fez anos e eu não lhe escrevi nada

 A minha mãe fez anos e eu não lhe escrevi nada.

Fiquei a consumir-me desde então porque não lhe tinha escrito nada. Não gosto de estar em falta com a minha mãe.

Estava doente nesse dia. Uma infecção urinária que não passa. Mas fui deixar a Ana à escola e passei no supermercado para comprar coisas para fazer o jantar para a família, na minha casa. E depois fui à fábrica de bolos e comprei o melhor bolo de amêndoa e chantilly do mundo, com raspas de chocolate por cima. E passei no shopping para lhe comprar um presente. No espaço de uma hora, sempre a correr. Trabalhei toda a manhã e tinha febre. Na minha hora de almoço dei uma geral na casa, para que ao jantar estivesse tudo apresentável. Arrastei-me a fazer isto. E voltei a trabalhar até ao fim da tarde. Acabei o trabalho e pus a mesa bonita. Fiz bacalhau espiritual, leite creme e preparei todo o jantar. Encomendei picanha e fomos buscá-la ao restaurante.

Chegou a minha mãe com a Ana e a seguir toda a família. Foi um jantar tão bom, que quase me esqueci da febre, da infecção urinária e do cansaço extremo.

Depois ao deitar-me percebi que não lhe tinha escrito nada bonito. A minha mãe gosta de palavras bonitas, eu bem sei. E merece todas as do Mundo, porque é a mulher mais valente e inteira que eu conheço.
A minha mãe fez anos e eu não lhe escrevi nada. Na sala ainda há restos do seu aniversário, incluindo o quadro de luz que a Ana lhe preparou.

A minha mãe gosta de palavras bonitas mas ensinou-me que as palavras valem pouco quando não são acompanhadas por gestos de bem querer. Acho que estarei perdoada.
Eu tenho a minha mãe e a Ana tem-me a mim: todo o amor entre mães e filhas é por aglutinação. Não poderia ter melhor. Acho que mereço esta mãe, a minha mãe, apesar de não ter escrito palavras mas lhe ter dedicado todo o meu dia, mesmo sem estar ao seu lado.

Amar é sempre cuidar e querer bem.

Talvez as palavras estejam sobrevalorizadas.

Fico a dever-te um poema, mãe mas tenho troco, gorgeta e juros no amor infinito que sinto por ti. No bem querer.

Parabéns. Também a mim que te tenho só para mim.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

No soy Georgina

 Descias as escadas a caminho da ala autónoma e eu vi-te pela primeira vez. Os nossos olhares cruzaram-se num segundo e eu senti qualquer coisa cá dentro que podia ser amor à primeira vista, acreditasse eu na altura ou mesmo hoje no amor à primeira vista. Horas depois éramos amigos, como se nos conhecessos desde sempre, como se eu na altura soubesse onde ficava São Jorge no mapa e eu nem sabia ao certo tão pouco o nome das nove ilhas dos Açores. 

Depois mudei-me para a tua turma, os professores ficavam confusos, nunca pedi transferência mas às tantas as minhas notas saiam nas vossas pautas e tudo fluía, sentávamo-nos lado a lado no auditório, tu davas-me, pacientemente, explicações de história nos jardins de Belém e eu retribuía, trocista, tudo o que sabia sobre neurónios e sinapses e a estrutura do cérebro naquela cadeira do professor esquisito. 

Depois foi num instante Natal e fomos ao Martim Moniz comprar prendas, não tínhamos dinheiro para nada, comiamos sempre na macrobiótica da cantina, pediste-me dinheiro emprestado e eu achei que não voltarias das férias da ilha que eu não sabia localizar no mapa, nem me devolverias os cinco contos e era início do segundo semestre e eu tinha saudades tuas, queria lá saber do dinheiro para alguma coisa. E voltaste, devolveste o dinheiro e trouxeste-me um presente, só para mim, para mais nenhuma amiga e uns dias depois cravaste-me um beijo e eu não me fiz de esquisita, mortinha que estava para deixar de fazer cerimónias.

 E depois já desciamos a avenida de mãos dadas, e passávamos férias juntos, e um dia os teus pais vieram cá e conheci-os, também já ias a minha casa há algum tempo, todos sempre gostaram de ti, é mesmo fácil gostar de ti. 

E estudavas e trabalhavas no café, eu dava explicações, íamos de carreira que apanhavamos no arco do cego passar fins de semana em pensões com percevejos em terras mais longe e depois o curso acabou, tu ficaste, começámos a trabalhar, eu, tu, daí a alugar a casa na praceta foi um passo, casar pela igreja dois, ter a Ana num piscar de olhos, mudarmos de casa uma e depois outra vez, mobília às costas, literalmente, sempre fácil, mesmo quando era dificil.

E houve crises que não nos lembramos por preguiça ou por escolha, não gostamos de coisas complicadas, e há sempre histórias a serem escritas, aguarelas a serem pintadas, vida a ser vivida e momentos importantes a ser construídos.

 Foste e és a melhor escolha da minha vida, a única que fica sempre, a decisão mais acertada, a companhia mais certeira, a pessoa mais fácil de gostar, o pai mais fantástico que já conheci e um marido, acima de tudo, incrivelmente bondoso, generoso, paciente e um homem bom. Depois há o amor, mas do amor não há muito que se lhe diga, não tem mérito, não dá trabalho, é fácil gostar de ti, se acreditasse em amor à primeira vista seria isso, assim eu só amor em todas as vistas, em todos os ciclos, em todas as células que amo em ti. 

É fácil amar-te porque não há outra alternativa face ao homem incrível que foste crescendo comigo. Para a Ana. Para mim. 

Parabéns, Rui. 

No soy Georgina, mas o melhor do Mundo sequei-o eu.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Ana, a horticultora

 

Ana plantou uma semente e todos os dias a rega, esperando ansiosamente que aquilo pegue.
Hoje sugeriu uma nova estratégia: "Li que devemos falar com as plantas que elas com amor crescem mais rápido. Vou ser mais querida com a semente. Já lhe arranjei um diminutivo fofinho e tudo."
Vai buscar o vasinho e aponta-me:
"Mãe, diz bom dia à sémen..."
...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Mámen, o crítico gastronómico

 

Depois do incrível gelado de pipocas do Continente que sabia a gavetas velhas, mámen, meu ryco marido, decide continuar a sua carreira de crítico gastronómico.
Esta manhã, prepara um sumo daqueles todos pipi com beterraba, banana, bagas xpto e tudo e tudo.
Enquanto ele bebe (primeiro que eu, porque, lá está, alguém tem que avançar sempre nestas coisas) vejo-o a passar a língua nos dentes, muito sério.
Eu: "Então? É bom? Sabe a quê?"
Mámen: "Sabes quanto estás na relva e tropeças, cais e vais com a cremalheira ao chão e comes relva e terra e tudo? Sabe a isso".
...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Era mesmo isto que eu tinha encomendando*

 

Férias de Natal que acabam quase a meio de Janeiro. Covid. Isolamento de sete dias com todos em casa. Ana volta à escola na segunda-feira. O que se segue?
Pausa lectiva.
Hoje é quarta-feira.


suspiro*

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Ana e a vibe motivacional

 

Ana: "Sabes aquilo de tu estares sempre a dizer que é treta que somos nós que fazemos a sorte porque não chega trabalharmos, temos também de ter sorte por termos nascido em Portugal, por haver paz, por sermos da Europa e isso?"
Eu: "Sim."
Ana: "Eu por acaso acho que nós podemos mandar na nossa sorte toda."
Eu: "Como assim?!"
Ana: "Estás a ver a caixa dos cookies da sorte que estavam na despensa? ... (Pausa)
...
Comi-os todos!"

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Aquele nível basicozinho de maturidade

A minha comadre vem à minha janela entregar-me um bolo de café com leite (minha ryca comadre!):
Ela: Com'assim estás sem sabor?
Eu: É para que vejas. Agora é que está a barraca montada...
Ela: E o estás a pensar fazer?
Eu: Vou ali emborcar o whisky Talisker que trouxe da Escócia e que nunca consegui provar. Assim como assim aquilo não me vai saber a nada...
Ela: Não sabe a nada mas bate!
Eu: Isso é que é visão...

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

domingo, 23 de janeiro de 2022

Tenho uma amiga

 

Tenho uma amiga a quem a primirmã deu uma maquineta para aparar sobrancelhas no Natal.
Tenho uma amiga que, até ontem, não mexeu na profissional do sexo da maquineta mas que ontem, depois de uma semana adoentada e num dia de febre e sem nada com que se entreter, decidiu testar a máquina.
Tenho uma amiga que achou que a máquina não estava boa, deu--lhe uns safanões e em vez de testar a máquina noutra pilosidade corporal qualquer, decidiu testar na sobrancelha esquerda.
Tenho uma amiga que está, em pânico desde ontem, a ver tutoriais de maquilhagem com lápis de sobrancelhas porque já mandou mensagens a várias meninas das micropigmentações (todo um mundo que ficou a conhecer ontem) e dizem que o melhor é dar com o lápis mesmo até os cílios da sobrancelha voltarem a crescer.

domingo, 16 de janeiro de 2022

A estrela da serra



Subimos a serra devagar. Era fim de tarde e tínhamos esperança que quando o sol se pusesse ficasse mais frio e pudesse nevar de verdade. À medida que íamos subindo e os graus descendo, vimos que o que havia de neve era miserável, à excepção de numa pequena encosta que vislumbrávamos. Chegados à Torre percebemos tudo e fomos fazer tempo a beber um chocolate quente enquanto as senhoras faziam o fecho do café e o sol, realmente, se punha. Fomos os últimos clientes. O trânsito para descer a serra intensificava-se e nós a vê-los todos, um a um, partir.

Quando só restávamos mesmo nós ligaram os aspersores gigantes de água para que a mesma gelasse assim que batesse na dita encosta. Neve à força mas, ainda assim, neve. Neve para no dia seguinte alimentar a escola de ski. Neve, ainda assim.

E, nesse instante, em que a neve era fabricada à força da vontade do homem à nossa frente por aspersores gigantes e holofotes- e já sem nenhuma alma em redor- subimos a pista vazia, com sacos de plástico do lixo e descemos uma, duas, dezenas de vezes a encosta, com tombos e gargalhadas, escorregadelas e corridas para ver quem chegava primeiro lá baixo.

A minha filha gargalhava tão alto que era como se a Serra se fechasse para a ouvir, lua cheia no céu, três graus abaixo de zero, eco, neve e estrelas. Não perguntou porque os aspersores faziam chover água, o que eram os holofotes, porque não lhe tínhamos comprado um trenó e lhe tínhamos dado um saco de plástico para a mão. Não perguntou nada. Escorregou, subiu, voltou a escorregar, gargalhou sempre. Ininterruptamente.

Já cansados e de barriga cheia de neve, sozinhos no alto da serra e no caminho para o carro abraçou o pai. Eu fiquei para trás para os fotografar e, logo a seguir a este click, esperaram por mim e ela abraçou-me também: "Agora já descobri porque se chama serra da Estrela, mãe!". Porquê, Ana? " Porque a neve mágica é só mesmo a esta hora da noite, à luz das estrelas, não é?" Sorri e acenei. "Faz sentido. Por isso é que não fica aqui ninguém até à noite: deve ser mesmo um mistério bem guardado. Podemos combinar uma coisa os três?" Conta! " Este fica o nosso segredo: não contamos mesmo a ninguém!"

Shiiiiuu!

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